
27/03/2024
Sumida por aqui, por motivo de luto. É isso mesmo, uma perda gestacional.
Bom, Freud já dizia que só conseguimos levar nossos analisandos até onde já fomos em nossos processos psíquicos.
Meu interesse pelo fenômeno da maternidade, essencialmente sobre a relação com o feminino não é de hoje, vem sendo meu tema de pesquisa à tempos. É de conhecimento que toda maternidade vem seguida de um processo de luto simbólico, natural a condição especial em que a mulher se encontra ao gestar outra vida. A ser casa para um outro e nascer uma mãe. Seu corpo já não é mais só seu, existe uma doação completa, certo anulamento e com isso modificações significativas físicas e psíquicas.
Luto é definido por Freud como "a reação à perda de um ente querido, a perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante."
Para além do luto simbólico, as vezes a maternidade nos surpreende com o luto real. E ali precisamos lidar com a fragilidade da vida em seu tecido fino e membranoso. Aquela que não se desenvolveu, envolta em um s**o gestacional vazio. É uma das dores mais tristes que existe, a perda de um filho. O ideal de alguém. Pois antes mesmo desse bebê nascer algo já se dizia e se sonhava sobre ele. É um investimento amoroso e tanto, um vínculo em construção que requer muita energia. E quando um nascer é interrompido pela morte, se instala um processo de luto doloroso quer queira, quer não. Um acontecimento que gera marcas, uma perda indizível, um vazio concreto. E não existe outra forma de passar por isso senão o atravessando na tentativa de dar contorno a essa vazio. Eu sinto muito por essa perda. Desejo que essa dor seja elaborada em força, afinal, uma mãe nasceu.