24/08/2020
Conversando com amigas queridas uma delas perguntou: inesperadamente: “vocês se sentem bem sucedidas?”. A resposta foi unânime “Não!”. Todas elas, mulheres admiráveis, batalhadoras, retas em caráter, excelentes mães, profissionais pós graduadas, empresárias, verdadeiras malabaristas da vida, todas revelaram franca insatisfação com sua autoimagem. A partir dessa triste constatação foi inevitável encadear signif**ados e justif**ativas para aquela sensação tão geral de não termos alcançado o que realmente sonhamos. São reflexões das causas deste sentimento compartilhado por mulheres que tanto admiro que coloco aqui.
Acredito que a percepção de fracasso sentida pelas mulheres que se permitem essa reflexão (claro! Pois nem toda mulher lança um olhar reflexivo sobre si mesma, sobre a maneira com que vive a própria vida. Somos ensinadas que mulher boa é aquela que não reclama, oprime seus dissabores a tal ponto de não refletir sobre eles) é produto de dois fatores principais, que se inter-relacionam e complementam: a falta de reconhecimento e valorização dos exercícios de cuidado, o materno especialmente e a sobrecarga feminina.
A maternagem é vista como um poder sobrenatural qualquer que a natureza confere às mulheres que são “abençoadas” pela maternidade, assim, de graça, por dádiva, uma oferenda dos céus àquela predestinada. Ser mãe não é um “trabalho”, a despeito de todo o trabalho que se tem para cuidar e educar um ser humano. A maternidade e seus cuidados são pensados como algo da natureza feminina, para a maior parte das pessoas, que não custa nada de ninguém, não custa planos deixados de lado, sonhos renegados ou remodelados a ponto de tornarem-se outra espécie de coisa, tempo, muito tempo, saúde mental e emocional. Enfim, para a sociedade em que vivemos, ser mãe é aquilo ao qual toda mulher foi predestinada e agraciada com as habilidades necessárias ao desempenho da função, pelos céus, pela natureza.
(Continua nos comentários)
Autoria: Lira Amaral, mãe da Cecília, Fonoaudióloga, Especialista em Cuidado Materno-infantil, Consultora em amamentação e sono infantil, pesquisadora e militante dos Direitos da Mulher mãe. Perfil: .consultoria