07/01/2026
Na teoria lacaniana, o gozo comporta um sentido não necessariamente de prazer, mas de uma fusão de prazer com desprazer. Enseja, assim, a ideia de que o prazer percebido a nível inconsciente desdobra-se em desprazer a nível consciente (mais tarde Lacan desenvolveu a noção de gozo para distinguir o gozo fálico do gozo feminino).
Ou seja, o gozo lacaniano relaciona-se com a tentativa do sujeito de ir além do prazer, o que provoca, obviamente, sensação desprazerosa. E provoca esta sensação porque o prazer inesgotável simplesmente não é possível, inclusive porque a compulsão à repetição do movimento do gozo desdobrar-se-á na pulsão de morte. Exemplo: tomar uma cerveja produz certa medida de prazer, tomar muitas cervejas, compulsivamente, faz o sujeito transitar do prazer inicial para o desprazer final e poderá culminar na sua queda. Ou seja, beber até cair não é considerado uma forma de prazer, mas demonstra o imperativo do gozo [lacaniano].
No livro “A Prática Analítica“, Thierry Bokanowski assim explica: “À compulsão à repetição (que visa a um “além do princípio do prazer” e que sublinha o aspecto “demoníaco” da pulsão) vêm se juntar as pulsões de destruição, força principal que cria obstáculos ao desenvolvimento da libido”.
Assim, g***r até a última gota, embora esteja geralmente no alicerce do desejo humano, poderia implicar no último gozo, na última sensação de prazer que o sujeito experimentaria (e isso, por si só, é angustiante porque remete à inexistência, à fragmentação do ser). Seria equivalente ao esgotamento perpétuo do prazer que mantém no sujeito a persistência do desejo.
Em poucas palavras: seria a morte do sujeito desejante destinado à incompletude. Atingir a completude, neste caso, significaria o fim da busca do sujeito pelo objeto que teoricamente preencheria o seu buraco.
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