18/02/2026
A Isadora
O pôr do sol é apreciado por muitas pessoas
Elas olham concentradas enquanto ainda há luz e brilho
Porém, quando o sol está praticamente coberto
Seja por uma montanha ou pela linha do horizonte
As pessoas se distraem e retomam seus afazeres
A ausência de luz e brilho não é admirada por tanta gente
Quando uma pessoa atravessa
Seu pôr do sol individual
E a vida vai dando os aparentes últimos fulgores
Os olhos ficam opacos
Os movimentos diminuem
Os cabelos caem
A voz é abafada
As palavras se tornam impronunciáveis
E o silêncio impera
Não são poucos os que se retiram
E não podemos julgá-los por isso
Alegam não ter forças para continuar vendo
Alegam que dói muito
Alegam que não têm preparo
É compreensível
Até mesmo as pessoas mais fortes e corajosas, em outros tempos,
Possivelmente tenham se afastado daquelas que iam pouco a pouco se apagando
Em compensação, quem ficou perto da Isadora até o fim
Com certeza foi iluminado pelo calor produzido por seus últimos raios
Eles continuaram esplendorosos
De cabeça erguida
Sem murmuração
Ela continuou brilhando intensamente
Investiu algumas de suas últimas oportunidades de vocalização
Contando sobre o amor de Jesus
Deixando claro que o ato de nos rendermos a Ele a faria mais feliz
Usou parte de suas últimas forças
Subindo degraus de pedras num castelo de aparência medieval circundado pelo mar
Com um vestido azul esvoaçante e cabelos bailando com o vento
Sorriso nos olhos
Vida nos lábios
Uma disposição impressionante para ser fotografada
Muita vontade de contemplar o céu, o mar, as árvores
Na praia, se mostrava agraciada ao observar as ondas
E os detalhes minúsculos das inusitadas estampas das conchinhas do mar
Molhando os pés nas ondas enquanto sorria livremente
Acariciando cachorros que apareciam pela areia, e que ela nem conhecia
Enquanto motoristas supostamente saudáveis reclamavam em congestionamentos
Nos mesmos engarrafamentos, ela com o corpo fragilizado
Estava estupefata com a natureza do outro lado do vidro do carro
Vislumbrando o amarelado do sol deslizando entre as nuvens
Admirando até lugares comuns emoldurados pelo entardecer
Quando a voz foi faltando
O aparelho celular se tornava um expositor
Dos seres vivos minúsculos que ela fotografava
Por aí e no quintal a própria casa
Os quais somos muito ocupados ou desinteressados para notar por conta própria
Embora já não conseguisse escrever novas histórias
Ficava empolgada com novos cadernos
Enxergava corações em blocos de pipoca doce
E descobria uma mina de felicidade na comida oriental
Suspirava enquanto observava patinhos brincando numa lagoa
Tentou reanimar uma borboleta que já não tinha mais chances
Corria, ainda que sem a coordenação motora que desfrutava outrora
Encantava diversas pessoas por sua beleza com presença
E por suas características físicas e soberania
Foi intitulada de lady Day
Dava risadas por pouca coisa
Soltava lágrimas sutis pelo que seria muita coisa
Consolou, com um abraço, o choro convulsivo da própria mãe
Pelo “adeus” que se aproximava
Permanecia serena e confiante
Por saber que, o “adeus” seria, na verdade, um “até breve”
Já que, um dia, vivos e mortos que foram salvos
Serão transformados e se encontrarão com Ele nos ares
Ela continuou pintando quadros
Ainda que não tenha preservado a destreza com o pincel, de anteriormente
Com a qual, expressava firmeza e delicadeza nos traços
Retratando as obras do Criador
O céu quase sempre presente
Seja ensolarado ou acinzentado
Capturando a beleza do contraste de postes intercalando outro pôr do sol
Nos últimos quadros, feitos com a mão esquerda
Traços retos grossos, sobrepostos, cores, formas emolduradas por pingos
Quiçá representando como estava processando a própria efemeridade
Ela pediu para não ficarmos decepcionados com Deus
Pelo fato dEle a chamar logo
Outrora ela pintou um quadro
Ilustrando o voltar das tartarugas para o mar
Deixando um rastro pelo percurso
É uma honra vê-la voltando ao próprio mar
É uma honra receber os respingos de areia molhada
Deixados pelo movimento de suas pernas agitadas
Voltando para a verdadeira Pátria
E como uma tartaruguinha que faz uma pausa
Enquanto se locomove rumo o mar
Ela permanecerá um tempo aguardando na areia
Até o momento do grande reencontro.
Poema escrito com muito carinho pela amiga Jacqueline Leire Roepke.