02/04/2026
Entre tudo o que o tempo faz com a gente, há aprendizados que não chegam de uma vez — eles se constroem em silêncio. E talvez um dos mais exigentes tenha sido compreender, de forma radical, que você é um sujeito — inteiro, singular e independente de mim.
Hoje completamos 17 anos de caminhada juntas.
Desde o dia em que você respirou pela primeira vez esse ar imperfeito, mas indispensável, e começou, ainda sem saber, a se haver com o mundo — com suas cores nem sempre nítidas, com suas contradições, com aquilo que é da ordem do real.
Ao longo desses anos, fui me tornando sua mãe para além de qualquer definição biológica. Fui aprendendo, na prática e nem sempre sem susto, o que significa ocupar esse lugar: oferecer palavra, olhar e presença suficientes para que você pudesse construir um caminho que é seu.
E, ao mesmo tempo, fui aprendendo algo que nunca se encerra: que você não me pertence. Que há em você uma vida que não se reduz à minha, um desejo que não se explica por mim, uma forma própria de ver, sentir e dizer.
Se, no início, minha função era sustentar, hoje ela se transforma, pouco a pouco, em acompanhar. Há um deslocamento silencioso acontecendo, desses que não se anunciam, mas que reorganizam tudo. E talvez ser mãe de uma filha de 17 anos seja, também, consentir com esse movimento — sem se ausentar, mas sem ocupar o que já não me cabe.
Há 17 anos eu te vejo viver. Vejo seu corpo seguir seu próprio ritmo, seus olhos se demorarem no que faz sentido para você, suas palavras ganharem contornos cada vez mais próprios. E é bonito, e às vezes desafiador, testemunhar essa vida que se afirma para além de mim.
Sigo por perto. Não como quem precisa conduzir, mas como quem sustenta uma presença possível. Com amor, com interesse genuíno por quem você é, e com respeito por quem você está se tornando.
Te amo, Xurupita.