10/04/2019
PRIMUM NON NOCERE (Hipócrates)
Uma premissa básica na Medicina é o Primum non nocere (Primeiro, não prejudicar). Sou médico psiquiatra especialista em transtornos de humor e já há algum tempo tenho recebido pacientes vítimas de iatrogenia no tratamento de quadros de alteração de humor (depressão, ansiedade, irritabilidade, agressividade, etc) vindas de médicos não psiquiatras especialmente Neurologistas, Cardiologistas, Endocrinologistas, Geriatras e Ginecologistas. O intuito desta postagem é alertar as pessoas sobre a falsa ideia de ausência de perigo de remédios que se acredita serem inócuos, como os antidepressivos:
1) Nem sempre um quadro clinicamente evidente de depressão deve ser tratado com antidepressivos. Alguns inclusive pioram com esta classe de medicamentos;
2) Nem sempre o que as pessoas acham que é ansiedade (como agitação, inquietação, pressa, aceleração) é realmente ansiedade, muitas vezes é ativação cerebral dentro da depressão e pode piorar com antidepressivos;
3) Antidepressivos não são tão inócuos e podem agravar ou até fazer emergir ideação e tentativas de suicídio;
4) O uso de antidepressivos em alguns tipos de depressão podem causar irritabilidade, agressividade, violência e até homicídios;
5) Formas silenciosas de bipolaridade são bem comuns mas por serem sutis sofrem com uma média de 15 anos de erro diagnóstico, sendo tratadas como depressão clássica com sucessivos tratamentos que podem inclusive agravar a doença;
6) Uma minoria super rara de portadores de transtorno bipolar alterna períodos de tristeza (depressão) com períodos de alegria (euforia). A maioria alterna períodos de depressão com períodos de irritabilidade do tipo agressiva (raiva, ódio, hostilidade, pavio curto). Nesses casos é comum se diagnosticar depressão e achar que a agressividade vem da personalidade;
7) Existem várias intensidades de alteração de humor, desde as mais fortes que levam o indivíduo a ser internado no hospital (crise de mania) até as bem sutis em que a pessoa e até seus familiares muitas vezes acreditam ser da personalidade dada a cronicidade em que ocorrem;
8 ) Existem formas variadas de apresentação de transtorno bipolar desde aquelas em que há períodos ou fases marcadas de mudanças de comportamento até aquelas em que a pessoa tem humor alterado continuamente por meses ou anos;
9) Um indivíduo com bipolaridade apresenta cerca de 3 vezes mais depressões do que fases de ativação. Ou seja, é uma doença depressiva. Qualquer pessoa com mais de 3 episódios de depressão precisa ser investigada para bipolaridade. Existe muito desconhecimento sobre formas mais sutis de bipolaridade;
10) A principal causa de suicídios é a depressão do transtorno bipolar. Logo, tentativas de suicídio recorrentes aumentam a chance de o diagnóstico correto ser algum tipo de transtorno bipolar e não depressão clássica. Cuidado ao achar que um paciente com ideias de suicidio deve ser tratado sempre com antidepressivos.
11) Quanto mais doenças psiquiátricas múltiplas a pessoa tiver (por exemplo: depressão + ansiedade + deficit de atenção + abuso de álcool) maior a chance de o diagnóstico correto ser algum tipo de depressão do transtorno bipolar do que depressão clássica;
12) Quanto mais ocorrer falta de resposta ao tratamento ou piora da depressão ou piora das ideias de suicídio ou piora das automutilações ou piora da insônia ou piora da ansiedade/pânico ou piora da irritabilidade com o uso de antidepressivos, maior a chance de o diagnóstico correto ser depressão do transtorno bipolar e não depressão clássica;
13) Nem sempre ansiedade clássica (pânico, fobias, pensamentos obsessivos) são sinônimo de uso de antidepressivos. No espectro da instabilidade de humor (bipolaridade cerebral) o uso de antidepressivos precisa estar protegido por estabilizadores de humor.
É triste receber a notícia de que um paciente se matou porque o pai não aceitou o diagnóstico de bipolaridade e o levou para tratamento com o Neurologista. Uma coisa é fato: o diagnóstico de depressão e o tratamento com o Neurologista é menos estigmatizante do que o diagnóstico de transtorno bipolar e o tratamento com Psiquiatra. Até quando o preconceito vale uma vida?
Boa noite a todos.