24/04/2026
Algumas relações terapêuticas são, de fato, marcantes.
Não apenas pelo tempo que duraram, mas pelo que produziram. Pela forma como ajudaram a organizar pensamentos, dar nome a experiências e ampliar a forma de se posicionar na vida. Em alguns casos, o terapeuta se torna uma referência importante, alguém que ocupou um lugar significativo em um determinado momento.
E isso não é um problema.
Levar algo da terapia para a vida, inclusive o vínculo construído ali, pode ser parte do que o processo teve de mais valioso. Não como uma presença concreta que precisa continuar, mas como algo que foi incorporado, elaborado e que passa a fazer parte da forma como a pessoa pensa, sente e age.
Ao mesmo tempo, esse lugar precisa ter um contorno, porque a terapia não se sustenta como uma relação infinita, nem como um vínculo que substitui outros. Quando isso acontece, o risco é que aquilo que deveria ampliar a autonomia acabe, aos poucos, limitando.
Encerrar um processo não apaga o que foi vivido. Não diminui a importância do vínculo. Mas marca uma passagem: aquilo que antes estava fora, na relação com o terapeuta, passa a ser levado para dentro, como recurso. Em alguns momentos, inclusive, eu costumo perguntar como a pessoa está seguindo depois desse tempo, porque essa passagem nem sempre é tão simples quanto parece.
É possível existir carinho, reconhecimento e até saudade, sem que isso signifique a necessidade de manter o terapeuta presente na vida de forma contínua.
Quando o processo foi consistente, algo dele permanece, mas permanece de outro jeito.