24/04/2025
Na sua trajetória pessoal, Gullar enfrentou momentos difíceis, tais como a tortura, o exílio e a repressão política. O poeta diante das suas dores políticas, sociais e existenciais, decide não se refugiar em negação, ao contrário, encara a realidade como único meio de lidar com a dor.
A citação estimula quem decide viver a realidade, quem decide não se entreter com falsas esperanças, quem decide não viver de negações.
Há uma impossibilidade de ilusão diante de uma dor pessoal ou coletiva.
A partir dessa frase, penso na clínica, lugar em que pode ser necessário um encontro com a dor. Aliás, é o espaço seguro para isso, porque é lugar do apoio, do acolhimento, da validação da sua experiência de vida.
Na clínica, há um convite para um mergulho profundo naquilo que arranha, tensiona, range, machuca, rompe, fragiliza.
Nossas dores têm história, memória, data, local, nome. Falar sobre o que dói é importante para elaborar o sofrimento, para reconstrução de si, para se fortalecer, para reforçar valores, para compreender necessidades afetivas, para valorizar vínculos mais seguros, para crescer e para se libertar.
Fugir do encontro direto com uma realidade difícil pode ser um caminho sedutor, mas não resolve. A potência da transformação está em encarar a vida de frente, de preferência com apoio, acolhimento e respeito ao tempo de cada um.
Não se trata de superação. Há dores que jamais serão superadas. Trata-se de como administrá-las. Trata-se de como existir com elas. Como estar no mundo com a dor.
“O atendimento psicoterápico é uma ajuda ao processo de significar que de alguma forma ficou bloqueado, e não está mais conseguindo seguir sozinho” (Amatuzzi).
José Nilton Pires Magalhães
Psicólogo - CRP 16/11283
Licenciado em Letras-Português
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- Texto na imagem é uma citação do livro “Rabo de foguete”, de Ferreira Gullar, publicado em 1998.
- Ao final, citação do livro “Por uma psicologia humana”, de Mauro Martins Amatuzzi, p. 63.