16/12/2025
Por pessoas como estas é que eu e muitos mais estamos tramados...
Jose Leitao Paula Cristina Leal Domicio Gomes Fatima Lopes Alice Tavares Maria Podence Lilianafernando Bandeira
𝐓𝐫𝐚𝐛𝐚𝐥𝐡𝐚𝐝𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐫𝐮𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐚𝐜𝐮𝐬𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐬𝐢𝐦𝐮𝐥𝐚𝐫 𝐚𝐜𝐢𝐝𝐞𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐫𝐞𝐜𝐞𝐛𝐞𝐫 𝐢𝐧𝐝𝐞𝐦𝐧𝐢𝐳𝐚𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬
A má sorte parece perseguir um operador de grua português. Pouco mais de seis semanas depois de iniciar um novo emprego, o trabalhador sofreu um alegado acidente num estaleiro em Zurique. Pelo menos foi essa a versão apresentada ao pessoal hospitalar em março de 2021. Segundo o seu relato, teria caído e embatido com o rosto num painel de madeira, lesionando também o tornozelo. Os médicos afastaram, no entanto, a hipótese de fratura. Foi-lhe aplicado um penso, prescritos medicamentos e declarada uma incapacidade total para o trabalho durante alguns dias.
Meses mais tarde, o trabalhador continuava a queixar-se de dores persistentes. Comunicou à Suva uma perda de sensibilidade na planta dos pés e dores intensas durante a noite, afirmando já não conseguir conduzir nem subir escadas. Para apurar a origem dos sintomas, os médicos realizaram uma ressonância magnética, que não revelou qualquer anomalia relevante. Apesar disso, a incapacidade para o trabalho foi sucessivamente prolongada até abril de 2022.
O que os médicos desconheciam era que o operador de grua já tinha assinado, há algum tempo, um contrato com outro empregador para exercer funções no Liechtenstein.
𝐍𝐨𝐯𝐨 “𝐚𝐜𝐢𝐝𝐞𝐧𝐭𝐞” 𝐥𝐨𝐠𝐨 𝐧𝐨 𝐬𝐞𝐠𝐮𝐧𝐝𝐨 𝐝𝐢𝐚
Também no Liechtenstein, a alegada má sorte parece ter continuado. Logo no segundo dia de trabalho, o trabalhador declarou ter tropeçado num objeto de betão e sofrido uma contusão no pé, segundo a participação de acidente. Voltou a queixar-se de dores e, uma vez mais, foi declarada uma incapacidade total para o trabalho — desta vez por quase um ano.
Este período revelou-se financeiramente vantajoso. De acordo com o Ministério Público de São Galo, o trabalhador recebeu indemnizações diárias por acidente tanto no Liechtenstein como na Suíça, arrecadando de forma fraudulenta mais de 100 mil francos. Está acusado de burla qualificada e branqueamento de capitais, sendo suspeito de ter simulado sintomas para beneficiar de prestações de seguros.
O julgamento decorrerá no Tribunal Distrital de Rheintal (SG), no âmbito de um processo acelerado. Aplica-se a presunção de inocência até ser proferida decisão final. O arguido já reconheceu os factos essenciais e aceitou a acusação, segundo o seu advogado.
𝐔𝐦𝐚 𝐫𝐞𝐝𝐞 𝐨𝐫𝐠𝐚𝐧𝐢𝐳𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐞 𝐟𝐚𝐥𝐬𝐨𝐬 𝐚𝐜𝐢𝐝𝐞𝐧𝐭𝐞𝐬
A investigação não se ficou por este caso. As autoridades descobriram que, no círculo próximo do arguido, várias outras pessoas teriam igualmente simulado acidentes de trabalho para obter prestações financeiras. Segundo o Ministério Público, enquanto ainda se queixava de dores após o alegado acidente em Zurique, o operador de grua começou a recrutar conhecidos e familiares.
Criava endereços de correio eletrónico e contas bancárias em nome dessas pessoas, que frequentemente geria pessoalmente. Em seguida, arranjava-lhes empregos no setor da construção e dava instruções precisas: simular um acidente pouco tempo depois do início das funções, muitas vezes logo no primeiro dia ou após poucos dias. O objetivo era convencer médicos e seguradoras de que sofriam de lesões profissionais que justificassem uma incapacidade total para o trabalho.
Os falsos acidentes multiplicaram-se em estaleiros por todo o país. Na Argóvia, um trabalhador afirmou que várias pedras lhe tinham rolado sobre o pé esquerdo e a perna durante trabalhos de escavação. Em Zurique, outro declarou ter escorregado a caminho da casa de banho e lesionado o ombro esquerdo ao cair. No Liechtenstein, um operário afirmou ter caído de uma altura de dois metros numa pedreira. Noutro caso, um trabalhador queixou-se de dores no ombro depois de escorregar com um carrinho de mão.
A acusação menciona catorze cúmplices presumíveis na Suíça e no estrangeiro, todos abrangidos pela presunção de inocência. No total, cerca de 600 mil francos terão sido indevidamente recebidos, sendo que o principal arguido terá ficado com uma parte substancial desse montante.
𝐓𝐫𝐚𝐛𝐚𝐥𝐡𝐚𝐫 𝐧𝐨 𝐞𝐬𝐭𝐫𝐚𝐧𝐠𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐚𝐩𝐞𝐬𝐚𝐫 𝐝𝐚 𝐛𝐚𝐢𝐱𝐚 𝐦𝐞́𝐝𝐢𝐜𝐚
Segundo o Ministério Público, o esquema estava bem organizado. O principal arguido tratava do alojamento e do transporte dos cúmplices. Alguns deslocavam-se à Suíça de autocarro para comparecer a consultas médicas, apesar de residirem no estrangeiro, e em certos casos continuavam a trabalhar apesar das alegadas lesões profissionais.
Empregados como pedreiros ou trabalhadores da construção de estradas, os seus currículos eram por vezes manipulados para aparentar uma vasta experiência profissional. Uma maior qualificação aumentava não só as hipóteses de contratação, mas também o salário e, consequentemente, o valor das indemnizações diárias. Num dos casos, um homem desempregado, que tinha iniciado uma formação como padeiro, afirmava trabalhar na construção civil há mais de vinte anos.
Durante muito tempo, ninguém suspeitou de irregularidades, apesar de algumas incoerências nos processos médicos. Num caso, um trabalhador declarou ter fraturado o pulso esquerdo numa queda, mas no hospital referiu uma lesão na mão direita. Mais tarde, voltou a mencionar a mão esquerda, alegando já não conseguir segurar uma chávena de café.
𝐌𝐞́𝐝𝐢𝐜𝐨𝐬 𝐞𝐧𝐠𝐚𝐧𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐣𝐮𝐢́𝐳𝐨𝐬 𝐞𝐥𝐞𝐯𝐚𝐝𝐨𝐬
Apesar de não encontrarem lesões objetivas, vários médicos acabaram por atestar incapacidades prolongadas para o trabalho. Segundo o Ministério Público, não lhes pode ser imputada responsabilidade, uma vez que as dores relatadas eram plausíveis e não podiam ser refutadas por meios médicos.
Alguns dos envolvidos encenavam cuidadosamente o sofrimento, utilizando andarilhos ou talas apenas durante as consultas. Outros terão recorrido a injeções de medicamentos fortes para sustentar a encenação. Como consequência, foram prescritas sessões de fisioterapia, exames, medicamentos e ajudas técnicas, originando mais de 50 mil francos em custos médicos desnecessários.
O maior prejuízo resulta, contudo, das indemnizações diárias. Várias seguradoras foram afetadas, sendo que a Suva terá pago, só por si, mais de 300 mil francos indevidamente.
A fraude foi descoberta após uma denúncia. Segundo a Suva, este tipo de esquema é difícil de detetar, uma vez que os envolvidos alteram constantemente os métodos e ocultam as suas ações de forma profissional. O responsável pelo combate aos abusos sublinha que não se trata de um caso isolado: redes organizadas causam prejuízos de vários milhões e prejudicam seriamente a economia suíça.
O Ministério Público requer uma pena de prisão de 36 meses, dos quais 14 de cumprimento efetivo. O arguido encontra-se atualmente em prisão preventiva.