28/02/2026
Quando um brasileiro vive no exterior, a família que permanece no Brasil pode ser pensada, a partir da teoria lacaniana, como uma encarnação privilegiada do grande Outro. Em Jacques Lacan, o grande Outro não é simplesmente “as outras pessoas”, mas o lugar simbólico da linguagem, da lei, das expectativas e das coordenadas que estruturam o sujeito. É o campo de onde vêm as demandas, os significantes mestres e o reconhecimento.
Ao expatriar-se, o sujeito não rompe com o grande Outro; ele desloca-se entre campos simbólicos. Passa a habitar uma nova ordem significante — outra língua, outros códigos sociais, outros ideais de sucesso — mas continua enlaçado ao Outro primordial que o constituiu: a família, com seus ditos e não-ditos, seus mandatos e fantasias. A família permanece como depositária de uma narrativa sobre quem ele “é”: o filho que saiu, o que venceu, o que abandonou, o que deve voltar.
O retorno ao Brasil no final do ano, momento culturalmente carregado de rituais familiares, intensifica esse encontro com o grande Outro. As festas e reuniões funcionam como dispositivos simbólicos que convocam o sujeito a ocupar um lugar já previamente escrito. Perguntas aparentemente banais — “vai voltar de vez?”, “está ganhando bem?”, “quando vem o casamento?” — operam como interpelações do Outro, reinscrevendo o sujeito na cadeia significante familiar.
O conflito emerge quando há descompasso entre a posição subjetiva construída no exterior e o lugar que o Outro familiar lhe reserva. No estrangeiro, o sujeito pode ter produzido novos significantes para se nomear: autonomia, reinvenção, deslocamento cultural. Ao retornar, porém, pode ser reconduzido ao antigo roteiro: o filho, o irmão, aquele que deve corresponder a expectativas herdadas. O mal-estar não decorre apenas da convivência, mas do choque entre duas economias simbólicas.
Além disso, o retorno reativa algo do desejo do Outro. O sujeito pode sentir-se convocado a responder à pergunta implícita: “o que você é para nós agora?”. Se no exterior ele experimenta certa suspensão do olhar familiar, no reencontro esse olhar se intensifica. O grande Outro familiar reaparece como instância que julga, reconhece ou desautor