09/12/2025
Hoje atendi uma menina de quase 2 anos cuja história me marcou.
Ela passou o primeiro ano de vida em um contexto socioeconômico difícil e, por isso, precisou ser encaminhada para adoção. Há alguns meses está com a nova família.
Nos últimos meses, surgiram comportamentos que preocupam: pouco contato visual, resposta limitada ao nome, brincadeiras repetitivas, dificuldade em compreender situações sociais e grande dificuldade em receber limites.
É natural que os pais temam autismo ao ver esses sinais.
Mas, ao avaliá-la, a hipótese que mais fez sentido não foi TEA, e sim algo relacionado ao vínculo — o “bonding”. A instabilidade emocional precoce pode repercutir no desenvolvimento de formas que se parecem muito com autismo.
Inclusive, o DSM-5 descreve o Transtorno de Apego Reativo (RAD), que aparece quando a criança vive cuidado inconsistente e tem dificuldade em estabelecer um vínculo estável. Os critérios incluem:
• pouca busca por conforto quando está assustada ou irritada;
• pouca resposta ao conforto oferecido pelo cuidador;
• afetividade reduzida e dificuldade em interações sociais básicas;
• irritabilidade intensa e muita dificuldade em aceitar limites;
• histórico de negligência emocional, múltiplos cuidadores ou institucionalização.
É um quadro que não é autismo, mas sim uma resposta à falta de previsibilidade afetiva.
Estudos clássicos com crianças de instituições na Romênia mostram isso com clareza: a privação de cuidado consistente pode gerar comportamentos autismo-like, que melhoram conforme o vínculo seguro é estabelecido.
Conversei com os pais sobre focar agora não em rótulos, mas em fortalecer a conexão: rotina, previsibilidade, presença sensível.
Ela precisa de tempo para confiar — e o desenvolvimento pode mudar muito a partir disso.
Casos assim lembram que, antes de qualquer diagnóstico, existe sempre uma história.
E apoiar a família nesse processo é o principal no cuidado em neurodesenvolvimento.