06/12/2025
Não precisamos lembrar-nos do nosso nascimento, para ele nos influenciar.
O corpo lembra. O sistema nervoso lembra.
E, sem palavras, essa memória molda a forma como reagimos ao desconhecido, ao intenso, ao vulnerável.
Isto signif**a que, quando estamos diante de um parto - seja a dar à luz ou a assistir - não estamos apenas a responder ao momento presente.
Estamos também a responder ao nosso próprio começo.
Se o nascimento foi apressado…
o corpo aprende urgência. E mais tarde, podemos sentir uma necessidade inconsciente de “fazer acontecer”, acelerar, controlar ritmos, não suportar espera.
Se houve muito controlo externo…
cresce em nós um padrão de vigilância. E no parto (ou na prática clínica), isso pode aparecer como dificuldade em confiar: no processo, no corpo da mulher, na equipa, no fluxo natural.
Se o início foi vivido com tensão ou medo…
podemos desenvolver hipervigilância - aquela sensação de “ preciso de garantir que nada corre mal”. É comum em profissionais experientes, que muitas vezes não entendam, porque não conseguem relaxar, nem quando tudo está bem.
Se houver separação precoce, toque brusco ou falta de acolhimento…
podemos sentir dificuldade em entregar, receber ajuda, pedir apoio. E isso surge tanto na mulher em trabalho de parto, quanto em quem cuida dela.
Nada disto é racional.
São respostas somáticas profundamente enraizadas, que voltam à superfície sempre que o corpo atravessa uma experiência que se parece - mesmo que vagamente - com o momento do próprio nascimento.
E o nascimento é exactamente isso: um portal que toca camadas muito antigas.
Por isso, muitos padrões que vemos no parto não são “traços de personalidade”. São heranças emocionais. Marcas somáticas que não tiveram espaço para ser compreendidas ou integradas.
E isto não é culpa de ninguém.
Não é falha da mulher. Nem falha do profissional.
É apenas humanidade.
Quando compreendemos que o nosso próprio nascimento influência a forma como vivemos e acompanhamos outros nascimentos, algo se abre dentro de nós: um espaço de gentileza, de auto-responsabilidade, mais consciência e presença.
E é neste espaço que transformações profundas começam a acontecer✨
Inês e Lurdes