30/01/2024
A partir de hoje, coordeno a ANGES nos Açores, mas, mais importante do que isso, é existir a oportunidade de juntos podermos criar projetos que nos conduzam para um envelhecimento mais ativo e que possamos, cada um de nós, fazer mais pelos outros. Um agradecimento muito especial à Helena Fagundes pela oportunidade da entrevista no Diário Insular e claro um agradecimento muito especial à ANGES pela confiança em mim!
Segue abaixo o texto para quem tiver interesse de ler e não conseguir ler nas imagens:
A ANGES - Associação Nacional de Gerontologia Social vai abrir uma extensão nos Açores e será o coordenador. Qual o trabalho desenvolvido pela ANGES?
Todo o trabalho da ANGES visa a promoção do envelhecimento ativo e bem sucedido, através de dois eixos principais : primeiro, colaborar com os poderes públicos e privados, nos planos de intervenção relacionados com as organizações sociais, independentemente da tipologia de resposta social e do fim económico e contribuir para o aperfeiçoamento profissional de todos os colaboradores e dirigentes das organizações sociais, desenvolvendo ações de formação nas diferentes áreas em que atuam, ações estas que podem ser presenciais ou online.
Em segundo lugar, organizar e disseminar informação de carácter técnico e científico, contribuindo, ainda, para o desenvolvimento, sustentabilidade, organização financeira e qualidade das respostas sociais, através de consultadoria e conceção de materiais de suporte, seja através de parcerias com outras associações internacionais, ou da partilha de informação científica internacional.
O que o levou a assumir este desafio?
No ano passado, tive a oportunidade de ser orador no Congresso “Envelhecer nos Eixos” organizado pela ANGES em Oliveira do Bairro e aí tive o privilégio de conhecer melhor o trabalho desenvolvido por esta associação, por perceber a forma apaixonada com que cada um dos voluntários se dedica de corpo e alma à promoção das melhores práticas ligadas ao envelhecimento e curiosamente também por perceber que queriam abrir um núcleo nos Açores que pudesse ser a ponte entre as respostas sociais existentes na região, as iniciativas privadas, as organizações e acima de tudo as famílias. Ora, há mais de 8 anos que me dedico ao apoio domiciliário, tendo inclusive escrito recentemente o livro “Sou Cuidador e Agora”, distribuído pela ANGES em todo o país, que visa formar os cuidadores, pelo que esta tem sido também a minha área de estudo e de trabalho ao longo do tempo. Diria que ambos sem saber estávamos à procura do mesmo.
Que projetos inovadores podem ser implementados numa região como a nossa?
Além de toda a parte ligada à formação, a ANGES publica a revista científica - RIAGE – Revista Ibero-Americana de Gerontologia, que reúne artigos nacionais e internacionais sobre envelhecimento, indexada pelo International Scientific Indexing, estando na vanguarda do melhor que se faz não só em Portugal, mas no Mundo.
Prova disso, são alguns dos projetos que já trouxe a Portugal, com um vasto conjunto de parceiros como: o simulador de envelhecimento, centro educativo para séniores em Pombal, o AGEING@LAB - Laboratório Internacional de Estudos sobre o Envelhecimento, ou ainda a Associação Internacional de Universidades de Terceira Idade (AIUTA Academy), entre muitos outros.
Muito mais do que trazermos projetos aos Açores ou criarmos projetos de raíz, é fundamental percebermos como é que se ocupa o tempo das pessoas e medir de forma muito concreta com atividades estímulo validadas cientificamente, o sucesso dessa ocupação, só assim poderemos perceber se foram medidas eficazes ou não, porque não basta colocar as pessoas a jogar às cartas no centro da freguesia e dizer que se está a promover o envelhecimento ativo.
O que pode ser desenvolvido em termos de formação. O online é essencial num arquipélago?
O online é fundamental nesta área, mas nada substitui o toque humano. Então, importa perceber que em termos de formação temos de conjugar na ANGES AÇORES formações online, até pela redução de custos, uma vez que o online nos permite ministrar formações com formadores nacionais e internacionais a preços muito reduzidos, mas, também ministrar formações presenciais seja com formadores da região ou não.
Posso desde já adiantar que em Março terá início o plano de formação da ANGES AÇORES estando já prevista uma formação online de quatro horas com o terapeuta integrativo e consciencial Francisco Ávila da ilha do Pico com o tema: “Como lidar com o sofrimento?”, uma formação fundamental para qualquer cuidador, qualquer profissional de IPSS e no fundo qualquer pessoa, porque não é destinada apenas aos mais velhos. Também em Abril está já prevista uma formação com a psicóloga Flávia Bessa sobre “Gestão emocional”, esta presencial na ilha Terceira. E isto é apenas o início de algo que será muito positivo para toda a região…Todas estas formações poderão ser consultadas na página da ANGES nas redes sociais, bem como no site.
A ideia ao longo do tempo será criar na região cursos acessíveis a qualquer pessoa, mas criar também especializações na área social, não obrigando os profissionais a deslocarem-se da ilha sempre que quiserem melhorar o seu conhecimento.
O que nos falta compreender sobre a área da Gerontologia Social?
Vivemos num mundo cada vez mais tecnológico em que as pessoas dizem o que lhes apetece nas redes sociais, em que as pessoas se ofendem com tudo e com nada, e num mundo em que valorizamos cada vez menos as pessoas. Há uns anos, quando estávamos à mesa era comum ficarmos a ouvir os mais velhos, as histórias antigas, as histórias de vida, os ensinamentos, e isso tem-se vindo a perder.
Por exemplo, tínhamos dúvidas sobre fazer uma determinada comida, perguntamos à nossa mãe, à nossa avó, à vizinha, hoje perguntamos ao Google ou pedimos à bimby que resolva. E cada um destes momentos, não era só a chamada sobre a comida, era um momento de partilha de quem sabia, era um momento de aprendizagem, mas era acima de tudo, um momento humano.
Com o evoluir dos tempos, a sociedade tem-se tornado cada vez menos humana, individualizando os sucessos, e os fracassos e aumentando os problemas…
Ora a gerontologia social vem-nos falar sobre um mundo inteiro que não cabia neste jornal, que nos tenta responder acima de tudo qual a melhor forma para envelhecermos bem e de forma ativa, tornando-nos menos dependentes de terceiros e mais felizes.
E é este o trabalho que a ANGES já desenvolve a nível nacional e que com esta extensão aos Açores vai continuar certamente a melhorar diariamente.
Que conselhos deixa a quem é cuidador ou, por outro lado, a quem está a envelhecer, para garantir que essa fase seja o mais positiva possível?
Todos envelhecemos todos os dias e felizes daqueles que têm a oportunidade de envelhecer, mas nem todos envelhecem da mesma forma, nem temos acesso às mesmas condições.
Um reformado que recebe 400€ de reforma mensal, não vai ter o mesmo acesso a cuidados de saúde primários, a alimentação, a atividades recreativas e muitas outras coisas do que um que recebe uma reforma de dois ou três mil euros.
Da mesma forma que alguém que vive nas Flores, na Graciosa ou até na ilha do Pico não tem as mesmas condições para envelhecer do que alguém na ilha Terceira ou até em São Miguel, porque entre muitas coisas, nem têm um hospital.
Ora, se já temos desigualdades sociais no que toca ao poder financeiro dos cidadãos, temos ainda desigualdades no que toca ao acesso a questões como uma unidade de saúde ou uma especialidade médica e se pensarmos em especialidades médicas ao domicílio, ou cuidadores ao domicílio, estas desigualdades agravam-se ainda mais.
É aqui que cada um de nós tem de desenvolver o seu papel para promover um envelhecimento ativo, desde logo por perceber que envelhecemos todos os dias, não o podemos adiar, nem cancelar. Assim, torna-se urgente enquanto cuidadores nos formarmos para sermos cada vez melhores, mesmo que não tenhamos ainda a preocupação de ser responsáveis por alguém, porque estes ensinamentos servem até para os próprios. Por outro lado, sendo pessoas mais velhas, é fundamental enquanto estamos plenos das nossas faculdades, procurar as respostas sociais existentes, perceber como podemos continuar a ser parte da sociedade, como podemos continuar a estar ativos, porque é comum quando as pessoas se reformam, aparecerem os problemas… E isto muitas das vezes deve-se à total apatia dos próprios. Ou seja, estavam habituados a um determinado ritmo de trabalho, a uma determinada atividade física, a ter preocupações, e de repente deixam de ter tudo isso e começa a pairar a nuvem do “já não sirvo para nada”, “já não posso trabalhar”. Nada mais errado! Estas pessoas podem e devem continuar a prestar o seu contributo e será também esta uma das grandes diferenças da ANGES AÇORES para outras associações, a integração nas nossas actividades de pessoas mais velhas, de pessoas com experiência de vida, com capacidade e com enorme utilidade.
Juntos, poderemos fazer sempre mais e melhor pelos outros, que se tornam nossos.