19/05/2026
Há os enfurecidos. Os irritadiços e os resmungões. Os amuados e os sorumbáticos. Todos são muito intensos. Todos eles não gostam de ser contrariados. E todos reclamam para si ter uma personalidade muito forte. Tudo isso é bem a prova de que a ira existe. E que não é um exclusivo das crianças.
A ira é tão natural como a sede. Surge, de rompante, quando o stress faz das suas dentro de nós. Ou sempre que, de tanto nos contermos, reagimos num impulso. Mas serve para ir à memória buscar informação mais ou menos adormecida. Serve para repor os ritmos biológicos e para equilibrar o estado do corpo. É um estabilizador de humor. E um ansiolítico e um anti-depressivo. Desde que ela não se guarde ou se tente iludir. Porque isso nos põe um sorriso no rosto enquanto nos transforma numa panela de pressão. E aumenta as probabilidades de termos um ataque de fúria.
Os enfurecidos, mal se sentem contrariados, reagem com a ira dum elefante numa loja de cristais. Magoam onde mais dói. E, depois, ficam-se por um: “mas, afinal, o que é que se passou?…” que deixa as pessoas na dúvida deles terem noção do vendaval que trouxeram.
Os irritadiços e os resmungões parecem ter descoberto uma forma de manifestar a sua ira em suaves prestações. Fazem lembrar Gru, o mal disposto. Contêm-se enquanto a sua irritação de todos os dias faz com que estejam para as os vulcões como as fumarolas. Em contexto profissional, correm o risco de se transformar em chefes destemperados. E, volta não volta, tornam-se amigos do bullying.
Os amuados e os sorumbáticos fazem birras para dentro. São susceptíveis e dados a melindres. Se for preciso, “prendem o burro” dias a fio. Contaminam com o seu ar de segunda feira todos os grupos onde vão estando. São dados a pequenos caprichos. E impingem uma sensação de culpa às pessoas com quem se relacionam, levando-as a pedir desculpa por coisas obscuras, talvez porque eles tenham uma enorme dificuldade em o fazer.
A ira que se manifesta em bruto torna-nos rudes. A ira que se guarda faz-nos azia e é amiga da mágoa. Já transformar a ira numa agressividade urbana, leal e com boas maneiras, é o caminho que nos leva a crescer. Mas fomos todos mal educados até lá chegar