29/03/2026
Um certo dia veio ao meu consultório alguém perturbado com algumas coisas que lhe foram ditas no âmbito de uma terapia com um casal de terapeutas...
Porém a resposta não foi esclarecedora e ao persistirem os sintomas, acabou por procurar outras formas para mudar o padrão, visto ser algo que se arrastava há anos.
O que me tenho apercebido durante os vários anos da minha profissão é que quem realmente procura o autoconhecimento e está comprometido com ele, não se contenta com respostas simples, prontas, ou cuja culpa seja remetida para algo externo, espiritual ou que porque simplesmente é assim.
E, quase como um diagnóstico médico, procuram uma segunda opinião até que alguém dê como solução, não apenas um analgésico, uma cirurgia ou uma terapia para resolver no imediato o desconforto, mas um itinerário de percurso para uma verdadeira mudança interna.
Vou tentar não me alongar muito, sobre esta questão, todavia vou explicar de forma a deixar o mais claro possível.
Há por aí uma teoria muito divulgada pelos auto intitulados espiritualistas que tenta explicar o aumento de sonhos intensos, estranhos ou perturbadores como resultado de uma suposta “transição energética” global. Dizem-te que estás a limpar traumas de outras vidas, que a tua alma está a libertar registos antigos, que estás a fechar ciclos kármicos acumulados ao longo de séculos, que a vibração está a mudar, etc. A ideia é realmente apelativa, quase poética, e dá uma sensação de importância e propósito áquilo que estás a viver.
Mas é precisamente por ser tão apelativa que merece ser questionada com seriedade, porque é no terceirizar a "responsabilidade" que mora o perigo.
Aliás, o ser humano sempre foi perito em terceirizar tudo aquilo que lhe causa incómodo, que exige demasiado trabalho, esforço, que exige pensar, sentir e principalmente que exige olhar para dentro.
Há aqui um ponto que a maioria das narrativas “espiritualizadas” evita tocar porque desestabiliza o próprio modelo em que assentam, a externalização do processo interno. Não é apenas um erro inocente, é um mecanismo profundamente humano de autoproteção e, ao mesmo tempo, de auto-sabotagem.
Quando alguém diz que os sonhos perturbadores são fruto de uma “transição energética”, está a fazer algo psicologicamente muito sofisticado, está a deslocar o centro de responsabilidade do indivíduo para um fenómeno difuso, coletivo e impossível de verif**ar, impossível de controlar, impossível até de compreender, principalmente pela mente humana e pela nossa visão algo limitada para assuntos que transcendem o normal funcionamento da fisionomia humana. Isto reduz aquela ansiedade imediata, porque retira o peso da autorresponsabilização, porém cobra um preço alto, pois retira também o poder de intervenção pessoal e imediata.
Na prática, cria-se uma espécie de anestesia espiritual, tipo "não te preocupes, é algo perfeitamente normal e nada podes fazer porque é espiritual, ou é a energia..."
Se o desconforto vem “de fora”, não há nada de concreto a fazer “dentro”.
Se é “o planeta a mudar de frequência”, então não é necessário questionar padrões de pensamento, feridas emocionais, incoerências comportamentais ou escolhas mal alinhadas. Tudo f**a diluído numa narrativa maior, quase mística, que explica tudo… no entanto resolve pouco ou nada.
E é aqui que entra o ponto mais desconfortável, olhar para dentro dá trabalho. E não é um trabalho romântico, daqueles "filmes' espirituais que nos impingem à direita e à esquerda.
Implica reconhecer contradições internas, enfrentar partes de si que não encaixam na identidade que se quer sustentar, admitir que certas dores não são herdadas de “vidas passadas” mas sim mantidas ativamente por padrões presentes, escolhas, hábitos, relações, formas de interpretar a realidade.
A mente humana prefere mil vezes uma explicação cósmica em grande escala a uma responsabilidade concreta, íntima e pessoal.
Porque uma explicação cósmica não exige mudança imediata.
Já a responsabilidade interna exige questionamentos, mudanças e rupturas com tudo e mais alguma coisa.
Há ainda uma camada mais subtil, estas narrativas não surgem no vazio. Elas prosperam porque respondem a uma necessidade coletiva de dar sentido, num mundo caótico. Mas também porque são facilmente instrumentalizáveis, consciente ou inconscientemente, por quem as difunde, dado que mais uma vez o ser humano dá poder a quem nem tem poder sobre a própria vida, mas quer ter poder sobre a vida dos demais.
Quanto mais difusa for a causa (“energia”, “frequência”, “ascensão”), menos questionável ela se torna. E quanto menos questionável, mais dependência externa gera de quem “interpreta” esses fenómenos.
Isto não invalida que existam dimensões da experiência humana ainda não totalmente compreendidas, há, sem dúvida. A questão não é negar o invisível. É perceber quando o invisível está a ser usado como fuga ao visível.
E o visível, aqui, é brutalmente simples.
Se os teus sonhos são perturbadores, há conteúdo psíquico a emergir.
Se há conteúdo a emergir, há algo a ser processado.
E se há algo a ser processado, isso tem de implicar participação ativa, não apenas contemplação passiva de uma suposta “transição global”.
O perigo aqui, não está em acreditar em algo maior.
Está em usar esse algo maior como subterfúgio, como desculpa para não fazer o trabalho que podes achar que é menor, todavia extremamente essencial, que é o confronto consigo próprio.
Porque no final das contas há uma inversão que poucos estão dispostos a aceitar.
Não é a “energia do mundo” que te está a transformar.
É a forma como escolhes relacionar-te com aquilo que emerge dentro de ti que define se há transformação… ou apenas narrativa.
E isso, ao contrário do que muitos gostariam, não pode ser terceirizado.
Aquilo que estás a sentir é real, ninguém pode argumentar o contrário. As noites agitadas, os sonhos vívidos, as imagens difíceis de descrever, a sensação de presença ou ameaça. Nada disso é imaginação gratuita. O erro está em atribuir a causa a algo externo, invisível e impossível de verif**ar, quando tens à tua frente explicações muito mais sólidas, concretas e exigentes.
O teu cérebro não desliga quando dormes. Pelo contrário, entra num dos estados mais activos e complexos que existem. Durante o sono, sobretudo nas fases mais profundas, processa informação emocional acumulada ao longo do dia e, muitas vezes, ao longo de anos. Tudo aquilo que evitaste sentir, tudo o que empurraste para segundo plano, tudo o que não tiveste espaço ou coragem para enfrentar, encontra ali uma via de expressão que não lhe é dada conscientemente.
E não surge de forma linear ou organizada.
Surge em imagens, símbolos, distorções, fragmentos. O cérebro não te fala em linguagem lógica nesse estado. Fala-te em metáforas visuais e sensoriais. E quanto mais intensa for a carga emocional reprimida, mais intensas e perturbadoras tendem a ser essas imagens.
Quando sonhas que estás a ser perseguido, que estás em perigo, que algo te observa ou te ataca, não há nada externo a invadir-te. Não há entidades, não há obsessores, não há forças invisíveis a interferir contigo. O que há és tu, em contacto com partes de ti que não têm sido reconhecidas, és tu, em contacto direto com as tuas sombras, medos, sentimentos, emoções, culpa, sem o filtro da tua mente consciente. Medos antigos, inseguranças profundas, memórias mal resolvidas, emoções que f**aram por integrar, têm durante o sono a possibilidade de o fazer... E fazem-o.
A mente cria figuras porque precisa de dar forma ao que é difuso. E essas figuras, por mais assustadoras que pareçam, não são inimigas. São representações. São linguagem.
O teu trabalho é interpretá-la.
A ideia de que tudo isto corresponde a uma limpeza de vidas passadas ou a um processo espiritual elevado pode parecer reconfortante, mas tem um efeito subtil e perigoso. Afasta-te do essencial. Faz-te olhar para fora quando devias estar a olhar para dentro. Dá-te uma explicação que não exige responsabilidade, apenas aceitação passiva.
E isso limita-te.
Porque se acreditas que o que está a acontecer vem de outras vidas, de registos antigos, de planos invisíveis, então colocas o centro da tua experiência fora do teu alcance. E quando o centro está fora, a capacidade de transformação também f**a de fora.
Mas se assumes que o que está a emergir vem de ti, da tua história, das tuas vivências, das tuas emoções não resolvidas, então a equação muda completamente. Torna-se mais desconfortável, mas infinitamente mais poderosa. Porque aquilo que está em ti pode ser compreendido, integrado e transformado.
Não precisas de teorias grandiosas para justif**ar o que sentes. Precisas de lucidez.
Isso não signif**a rejeitar práticas como a meditação, o contacto com a natureza ou certos rituais pessoais. Pelo contrário, essas práticas podem ajudar-te de forma concreta, desde que compreendas o que realmente fazem. Não estão a limpar dimensões invisíveis nem a proteger-te de forças externas. Estão a regular o teu sistema nervoso, a desacelerar a tua mente, a reduzir a ativação interna e a criar condições para que o teu corpo entre num estado de descanso real.
Apesar de todos os estímulos externos, da sobrecarga emocional e da intensidade que se manifesta nos sonhos, podes criar um espaço de transição consciente antes de dormir. Esse espaço não precisa de ser complexo, mas precisa de ser consistente.
Começa por abrandar. Fecha o dia com alguns minutos de presença. Deita-te ou senta-te confortavelmente e leva a atenção à respiração. Inspira de forma lenta e profunda, sustém por um breve momento e expira mais lentamente do que inspiraste. Repete este ciclo até sentires o corpo a ceder. Sempre que a mente fugir, não a forces a parar. Apenas regressa ao ritmo da respiração. Esta é a base da tua meditação, simples, direta e sem adornos.
Depois, introduz um mantra curto que funcione como âncora. Não precisas de palavras complexas. O cérebro responde à repetição e à cadência. Podes repetir internamente, ao ritmo da respiração: "Eu estou seguro, estou presente, permito-me descansar". Ao fazê-lo, estás a alinhar pensamento e corpo num mesmo ritmo, reduzindo a dispersão.
Se quiseres dar uma forma mais estruturada a esse momento, usa uma oração com base racional, consciente do que está realmente a acontecer em ti.
"Reconheço que o meu corpo e a minha mente estão a processar tudo o que vivi. Não preciso de controlar cada pensamento nem cada sensação. Dou espaço para integrar, organizar e recuperar. Confio na capacidade natural do meu corpo para entrar em repouso".
Se preferires uma linguagem mais simbólica, aquilo que muitos chamam de oração quântica, usa-a como ferramenta de foco interno e não como explicação literal da realidade.
"Alinho-me com um estado de equilíbrio e clareza. Liberto tensão acumulada. Permito que o meu corpo entre num estado profundo de descanso. Tudo o que é excessivo em mim perde força, tudo o que me sustenta fortalece-me".
Antes deste momento, um banho pode reforçar a transição. Água morna, ambiente calmo, sem estímulos agressivos. Se quiseres acrescentar ervas como alecrim ou lavanda, fá-lo pelo efeito sensorial e associativo. Enquanto a água corre, não imagines que algo invisível está a ser removido. Marca apenas o fim do dia. Diz para ti mesmo, de forma simples e clara, que o ciclo ativo daquele dia terminou. Esse gesto, repetido ao longo dos dias, ensina o teu cérebro a abrandar.
Nada disto funciona por si só se for feito de forma ocasional. O corpo aprende por repetição. A mente estabiliza por consistência e por hábito. É essa continuidade que transforma um conjunto de gestos simples num verdadeiro mecanismo de regulação.
O ponto essencial que não te dizem com clareza é este, o cérebro do ser humano hoje tem uma diferença abismal do cérebro das gerações que nos precederam. O cérebro humano não está adaptado ao ambiente em que vive hoje. O sistema nervoso foi feito para ciclos completos de atenção, interpretação e resposta, mas esses ciclos hoje em dia são constantemente interrompidos. A cada poucos segundos mudamos de foco, recebemos novas imagens, novas narrativas/informações, criando uma incompletude cognitiva em que experiências não processadas durante o dia f**am em suspenso, é sobrecarregado com milhares de imagens e informação por minuto, as telas contribuem de forma exponencial para isso, quando fazemos uma viagem, a nossa mente anda à velocidade que conduzimos, a consciente foca-se no percurso principal porém a inconsciente regista muito mais do que imagens. Capta padrões emocionais, sinais de ameaça, incoerências e detalhes periféricos do ambiente. Quando conduzimos, por exemplo, não estamos apenas atentos à estrada de forma consciente. O cérebro mapeia constantemente os riscos, os movimentos imprevisíveis, estímulos periféricos e tensões internas à mesma velocidade do percurso. Ao somar isto ao consumo digital, com estímulos artificiais, vidas editadas e narrativas contraditórias, instala-se uma desorganização interna. O cérebro perde referências claras sobre o que é relevante e o que deve ser ignorado, o que é realidade e o que não é.
Durante o sono, especialmente na fase REM, o cérebro tenta reorganizar toda esta informação. Não se trata de uma limpeza espiritual, mas de um processo biológico de integração e coerência. Sonhos intensos ou perturbadores refletem saturação, conflito interno e excesso de estímulos não integrados durante o dia. O cérebro não está apenas a processar o mundo, está a compensar aquilo que não foi enfrentado conscientemente, tentando fechar ciclos que o nosso estilo de vida fragmentado impede.
Sonhos intensos não são um sinal de evolução espiritual automática. São, muitas vezes, um sinal de acumulação mental e emocional que deixou de caber dentro dos limites habituais.
E quando isso acontece, tens duas opções.
Podes agarrar-te a explicações que te fazem sentir protegido por uma narrativa sedutora, mas que te mantêm na mesma posição interna.
Ou podes usar isso como um espelho exigente e perguntar-te, com honestidade desconfortável, o que é que estás a evitar ver, sentir ou reconhecer na tua própria vida.
Não é uma pergunta leve. E a resposta raramente é imediata.
Mas é aí que começa qualquer transformação real.
Sempre que acordares de um desses sonhos, em vez de tentares interpretá-lo logo como uma mensagem externa, observa a emoção que ficou. Medo, angústia, tensão, impotência, culpa. E pergunta-te onde é que essa emoção já existe na tua vida em estado de vigília, em que situações aparece, com que pessoas, em que padrões repetidos.
É aí que está a chave.
Não no símbolo em si, mas na emoção que ele transporta.
Exemplo real: uma mulher que sonha repetidamente que está a ser perseguida. Corre, esconde-se, sente o corpo em pânico, acorda antes de ser alcançada. Durante muito tempo acredita que algo externo a está a afetar e procura soluções fora.
Mas nada muda.
Até que decide olhar de outra forma. Pergunta a si própria onde sente aquela mesma pressão na sua vida diária. E percebe que vive constantemente a evitar confronto, a adiar decisões, a silenciar o que sente para não criar conflitos ou desconforto.
A perseguição não vinha de fora.
Era a vida dela, constantemente adiada, a aproximar-se.
Quando começou a agir de forma diferente, a enfrentar pequenas verdades, a assumir conscientemente o que evitava, os sonhos transformaram-se. A figura deixou de a perseguir com a mesma intensidade, até que se afastou, perdeu força e, um dia simplesmente deixou de aparecer.
Não porque alguém a protegeu.
Mas porque ela deixou de fugir...
Texto extraído do livro "ILUMINADO? TENS A CERTEZA? de Teresa Gonçalves
Todos os direitos reservados, plágio punido por lei.
by Teresa Gonçalves
Especialista em Psicanálise
Especialista em Psicologia Arquetípica e Linguagem dos Sonhos
Especialista em Psicoterapia Interativa Neurosistémica e Psicologia Positiva
Tema Musical Autoral: INNER VOICE
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