
22/07/2025
Na minha infância pude contemplar muitas vezes a parede por detrás da porta da cozinha da casa da aldeia do meu pai onde ficavamos quando iamos de visita.
Um correr de bilhas de barro expostas em fileira por parteleiras feitas à medida que embora escondidas atrás da porta aquela parede ganhava destaque e timidamente competia com a grande lareira da sala.
Haviam bilhas de todo o tamanho desde as mais pequenas às da minha altura que me punha a pensar como seria possível alguém transportar tal bilha cheia de água. Vim a descobrir mais tarde que essas ficavam em casa e que iam sendo cheias por outras bilhas que não aquelas que essa sim iam às fontes buscar as águas.
Havia magia naquela parede cheia de bilhas dispostas num correr que faria inveja a qualquer museu etnografico.
A água que se retirava com uma caneca mais pequena de barro mergulhava naquele buraco frio e escuro e reaparecia magicamente com uma boa quantidade para encher um ou mais copos com uma água fresca e de cheiro a terra. Água Viva.
Mesmo já depois de existir água corrente na casa a parede manteve-se e permaneceu a práctica comum uma mulher ir buscar água às fontes acompanhada de uma bilha transportada à cabeça.
Estas mulheres já foram figuras essenciais no seio da aldeia. Aguadeiras, chamavam-lhes. Mulheres que traziam as águas às casas sendo pagas pu não, sendo sa casa ou não,. Todas elas representando o simbolismo da resiliência feminina e da vida comunitária. Tal como a própria água, que corre resiliente e nutrindo a tudo e a todos por onde passa em total devoção.
Hoje. Com as memórias ancestrais dos códigos congelados finalmente a fluir. Livremente para aqueles que estão despertos, presentes, atentos e ousados.
O que será que a água tem para te dizer?
O Vislumbre das Águas
Sessão Oráculo
(Link na bio da página)