03/03/2026
A MONTANHA
(Notas sobre a resiliência, autoconhecimento e emocionalidade no ultra trail – psicologia do desporto)
Eram três da manhã quando o despertador fustigou o silêncio do quarto... Para a maioria das pessoas, aquele som torna-se um intruso; mas para o João, um atleta de ultra trail, é o sinal de que a negociação e o confronto com a própria mente acabaram de começar...
À medida que ele amarrava as sapatilhas e que preparava todo o material, o ritual torna-se mais psicológico do que físico…
O ultra trail não se trata apenas de correr ou de levar o corpo à exigência física; porque na realidade, é uma jornada de gestão emocional de uma constante crise em movimento.
Atravessar montanhas, enfrentar desníveis de milhares de metros e correr durante 15, 20 ou 30 horas, exige que o corpo se torne um mero passageiro de uma mente obstinada e compenetrada em alcançar um objetivo…
A importância do desporto na vida das pessoas vai muito além da estética ou da saúde cardiovascular. O desporto é um laboratório, onde a vida se vai reconstruindo através da reflexão, tendo um impacto na melhoria da nossa condição física.
O desporto educa o sistema nervoso para lidar com o stress e a ansiedade…
Quem aprende a controlar a respiração perante o medo e pânico que se ente no topo de uma montanha fustigada pelo vento, desenvolve uma inteligência emocional superior para lidar com a pressão de um prazo no trabalho ou com um conflito familiar…
No caso do João, cada subida íngreme sob o luar da serra do Marão, é uma metáfora e um ensinamento para os problemas do quotidiano.
Nesse sentido, ele trabalha a resiliência, e como exemplo, a ideia de aprender a continuar quando as pernas pedem para parar… a resiliência ensina-nos a não desistir perante as adversidades da vida...
Também, perante a solidão dos trilhos, as máscaras sociais caem. Porque através do autoconhecimento, ficamos a sós com os nossos medos e com as nossas forças.
Por outro lado, existe a necessidade permanente de se conectar com o Presente e com o aqui e agora… O trail exige atenção plena. Um passo em falso numa pedra solta pode ditar o fim da prova…
É aqui que a Psicologia do Desporto entra como o verdadeiro treinador invisível. Enquanto o preparador físico cuida dos músculos, o foco psicológico cuida da "máquina central".
A Psicologia do Desporto ensina ferramentas vitais como o auto-discurso positivo e a reestruturação cognitiva. Quando o João sente que não consegue mais, ele não pensa nos 60 km que faltam, mas sim no próximo posto de abastecimento ou base de vida…
Ao atingir o quilómetro 100, o João entrou naquele lugar sombrio onde a dor física deixa de ser um ruído para se tornar um grito... Foi nesse momento que as barreiras emocionais colapsaram e as memórias da sua vida começaram a projetar-se nas paredes de rocha. Ele lembrou-se das fragilidades que o moldaram e que tentava esconder sob a capa de "atleta de ferro".
Naquela solidão profunda, as lágrimas misturaram-se com o suor; não eram lágrimas de derrota, mas de uma catarse necessária. O ultra trail forçou-o a abraçar a sua própria vulnerabilidade, ensinando-lhe que a verdadeira força não reside em ser inquebrável, mas em ter a coragem de se recompor enquanto tudo parece desmoronar…
A subida final foi uma dança entre o desespero e a transcendência. Cada batida do coração ecoava como um lembrete de que ele estava vivo, presente e capaz de sentir uma alegria tão intensa que beirava a agonia…
Ao ver as luzes da vila lá em baixo, o João sentiu uma onda de gratidão avassaladora — não apenas pelo corpo que o carregou, mas pela mente que lhe permitiu perdoar os seus próprios limites.
Ali, no limiar da exaustão, ele compreendeu que a meta era apenas um detalhe; a verdadeira vitória tinha sido o diálogo interno de compaixão e superação que o transformou de um homem que corre, num homem que sente a liberdade em cada fibra do seu ser.
O João cruzou a meta ao pôr do sol do dia seguinte. Estava exausto, mas os seus olhos brilhavam com uma clareza que só o esforço extremo proporciona. Ele não venceu apenas a montanha; ele venceu a versão de si mesmo que queria desistir.
"A montanha não se sobe com as pernas, sobe-se com a cabeça. O corpo apenas obedece."