02/07/2023
Mãe, pai, deixem o telemóvel.
Olhem um pouco para mim. Vejam como já sou capaz de saltar com um pé só, olhem a maneira como o meu corpo rebola sobre o sofá, vejam como estou a ficar tão grande, tão forte. Até já como a sopa sozinho, já corto os papéis com a tesoura bem direitinho, já pinto os desenhos por dentro das linhas. Vamos pintar juntos, vamos, vamos?
Mãe, pai, deixem o computador.
Olhem um pouco para mim. Vejam como construí este castelo de legos, é gigante, não é? Podíamos jogar ao Jogo do Ganso, ou ao esconde, no outro dia descobri um sítio aqui em casa em que aposto que ninguém me vai encontrar. Vamos, vamos?
Mãe, pai, parem um pouco.
Deixem de responder a e-mails, deixem a casa desarrumada uma vez, não vejam em mim um trabalho, uma obrigação. Vamos divertir-nos juntos, vamos? Vamos inventar novas maneiras de abraçar, novas maneiras de brincar. Vamos, vamos?
Mãe, pai, não preciso de presentes.
Só preciso que estejam presentes, só preciso que quando estão aqui por casa estejam mesmo aqui por casa, e não nos empregos, e não em visores de telemóvel ou de computador. Só preciso que estejam comigo, mesmo comigo, quando estamos juntos. Não preciso de grandes coisas, de grandes prendas. Só preciso de nós todos juntos, a brincarmos juntos, a jogarmos juntos, a dizermos piadas sem sentido, a contar histórias sem sentido, a sabermos uns dos outros.
Mãe, pai, vamos, vamos?
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A RARIDADE DAS COISAS BANAIS