17/03/2026
O poder não inaugura um sujeito novo, ele intensifica aquilo que já está em jogo.
Quando grupos ou sujeitos historicamente atravessados por experiências de violência, exclusão ou silenciamento passam a ocupar posições de poder, não há uma espécie de reinício. O que existe é a continuidade de uma história que agora encontra outros meios de se expressar.
Porque ninguém chega ao poder fora das normas que o constituíram. A forma como alguém age, decide e interpreta o outro está profundamente atravessada por processos anteriores, sociais, simbólicos e também corporais. O trauma, nesse sentido, não é apenas uma memória, ele organiza percepções, ativa estados de alerta e define o que é vivido como ameaça.
Por isso, não é raro que, diante da possibilidade de exercer poder, surjam movimentos de hiperproteção, fechamento ou mesmo uso antecipado da força. Não necessariamente como escolha consciente, mas como resposta aprendida, inscrita, uma tentativa de evitar a repetição da dor que, paradoxalmente, pode reencenar a mesma lógica.
Ao mesmo tempo, há algo incontornável. Somos responsáveis pelo que fazemos com aquilo que nos constituiu. Ainda que não escolhamos as condições iniciais, há sempre um ponto em que o sujeito é convocado a responder por sua forma de agir no mundo.
Talvez a questão mais importante não seja se o trauma produz repetição ou transformação, mas se há espaço, individual e coletivo, para sustentar a consciência desse processo. Porque é nesse intervalo, entre o que nos marcou e o que fazemos com isso, que algo diferente pode, de fato, acontecer.
Este texto dialoga com contribuições da psicanálise, dos estudos culturais, da teoria social e da neurociência, a partir de autores como Judith Butler, Anthony Giddens, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Sigmund Freud, Jacques Lacan e António Damásio.