16/07/2023
Um médico psiquiatra é fã de um empate no que à consciência diz respeito. E não é por causa do vinho. Eu explico.
Há 25 anos, em Tucson, Arizona, Cristoph Koch, um neurocientista exuberante, vestido de vermelho e dourado, e David Chalmers, um filósofo cabeludo, com uma t-shirt preta, fizeram uma aposta.
Em termos simples, Koch afirmou que era uma questão de tempo até a neurociência explicar como o cérebro produz a consciência.
Chalmers, um jovem na altura — na fotografia actual o filósofo australiano parece uma estrela decadente do Rock —, apostou com ele que, 25 anos depois, os neurocientistas não seriam capazes de o fazer em termos claros.
David Chalmers está convencido de que será cada vez mais fácil explicar determinadas funções cognitivas como a discriminação perceptiva, a intergração da informação ou o controlo deliberado do comportamento. Todos estes problemas estariam associados aos aspectos objectivos dos mecanismos cognitivos.
Difícil será explicar o porquê destas funções estarem associadas a uma experiência consciente. Por esta ser a parte difícil, chamou-lhe “Hard Problem”. A expressão f**aria famosa para sempre. Coisas de filósofos…
Koch gozou com ele nos bastidores, perguntando-lhe se acreditava que eramos conscientes por obra do Espírito Santo, mas aceitou a aposta. Quem perdesse ofereceria ao outro uma caixa de vinho dali a um quarto de século.
Conheci a história há 20 anos, quando estava a escrever a minha tese sobre este conflito aparentemente insanável entre uma perspectiva científ**a pura e dura (essencial para qualquer médico) e uma perspectiva fenomenológica (condição “sine qua non” para um psiquiatra).
Lembro-me de, nessa altura, ter ido a Lisboa perguntar a António Damásio acerca do “Hard Problem”. Ele sorriu condescendente e percebeu, com a argúcia de um cientista, que era eu quem estava com problemas difíceis e, em vez de responder, perguntou-me o que é que eu fazia para ganhar a vida. — “Ah! É psiquiatra…” — como se essa observação o eximisse de uma resposta, por ter feito um diagnóstico de uma perturbação rara.
No mês passado, em Nova Iorque (o que vemos na imagem), o neurocientista e o filósofo reencontraram-se. Chistoph, sem dar luta, levou uma caixa de vinho para David.
Repetiram a aposta: daqui a um quarto de século, Koch com 91 anos e Chalmers com 82 continuarão este jogo de perde-ganhas (basta ver o ar satisfeito de Koch a transportar a caixa de vinho).
E se considerássemos uma perspectiva que não olhe para o cérebro como um molho de neurónios fechados na caixa craniana nem para a mente como uma espécie de borboleta evanescente? Pela minha parte, sempre gostei do diagnóstico de Chalmers, mas fico descontente com a ausência de solução.
Acredito que uma espécie de “dualismo empírico” (não o do velho Descartes) pode ser parte da solução. Dou um exemplo banal: quando temos dores num pé, por exemplo, os estados cerebrais, que podem ser observados por um qualquer neurocientista, e os fenómenos conscientes associados à dor, nem sequer acontecem no mesmo lugar.
Seria estúpido um neurocientista não levar em conta a experiência do sujeito.
Acontece muito, nos hospitais, ligarem os pacientes a máquinas de monotorização da frequência cardíaca, saturação respiratória, etc., que fornecem com rigor dados objectivos, mas quando os enfermeiros e os médicos querem saber da intensidade da dor (estado subjectivo por excelência – “cada um sabe das suas”) têm de perguntar ao paciente.
A psiquiatria depende desse exercício de superação do abismo que existe entre o “subjectivo” da descrição fenomenológica, incluindo a avaliação de todas experiências mentais, e o “objectivo” da neurociência, que permitiu nas últimas décadas abrir as portas à esperança de novos tratamentos para a depressão, a ansiedade ou as demências, só para citar alguns exemplos de doenças frequentes.
Daqui a 25 anos cá estaremos para saber o resultado do “segundo round” entre Koch, investigador de mérito do Allen Institute for Brain Science em Seattle, Washington e David Chalmers, do Center for Mind, Brain and Consciousness da Universidade de Nova Yorque. O resultado está em Filósofos 1 -Neurocientistas 0.
Desconfio que em 2048 estará 2-0 no “placard”. Koch continuará a perder (embora muito mais divertido como investigador de mérito) e Chalmers cada vez mais desiludido por vitórias fáceis. O vencedor e o vencido, afinal, têm a mesma visão de jogo.
Estamos todos (incluindo David) a torcer por um empate. Sirvam-se, para melhor resultado, do conselho de Sun Tzu em a Arte da Guerra: conhecer muito bem o adversário é a melhor estratégia para vencer uma batalha. Se não for possível, seria muito bem-vinda, neste caso, uma influência da arbitragem.
P.S. O produto Interno Bruto português f**a sempre a ganhar se os contendores mantiveram o bom gosto vínico. No caso, como se pode observar nas fotos, Koch ofereceu uma caixa de Vinho da Madeira de 1978 que custa a módica quantia de 500 € por garrafa.