06/04/2026
São 44.
Queria escrever o quanto sou abençoada. Não porque o caminho tenha sido fácil. Não foi, não é. A sensação que trago é a de ter vivido várias vidas dentro de uma só, atravessadas por desafios, dores e embates profundos.
Às vezes duvido tanto, e tenho tanto medo, que peço milagres. E Deus tem-me dado a graça de os reconhecer. O maior deles é este: continuar a acreditar no belo e na bondade, minha e do outro.
Trago uma lembrança entranhada nos ossos, vinda de tempos que já nem sei se são meus. Por vezes ela acorda em forma de revolta ou indignação. Ainda assim, o milagre é sempre o mesmo, mesmo quando chega por caminhos diferentes.
No caos, na tempestade, quando o medo chega e me faz acreditar que vou paralisar, nos dias não, na injustiça e na ofensa, o milagre é nunca ter “quebrado”. Abalada, ressentida, nunca quebrada.
Deus colocou-me em mãos amigas, entregou-me o abraço seguro dos meus maravilhosos pais. Muitas vezes, abençoou-me com o sorriso dos meus filhos ou com um “amo-te tanto” do meu marido. Quando me senti impotente e frágil, fez-me ver um lírio, um girassol, uma pena de águia. Fez-me sentir o sol a aquecer-me a pele, a brisa de uma manhã envolta em esperança. Deu-me as árvores, os montes e um gosto imenso por dançar e cantar. Deu-me uma teimosia visceral por nunca desistir, por perseverar.
Resisti. E resisti muito graças às pessoas bonitas que me resgataram com gestos simples e precisos: a medalhinha de Nossa Senhora dos Milagres, uma música enviada com uma letra que dizia tudo, um telefonema inesperado “só para saber se estás bem”. Terapeutas maravilhosos, que tocaram o meu corpo dorido, que me trouxeram ensinamentos preciosos e ofereceram escuta verdadeira. O “qui bom” do professor Yoshi.
O maior milagre é este: ter também impregnada nos ossos uma memória de uma alegria quase infantil, um sorriso fácil e um amor profundo por ver outras pessoas expandirem e descobrirem essa mesma força original.
Continua nos comentários.