02/11/2021
NOS MEUS DIAS DE TRABALHO TODOS OS DIAS ACONTECE BECK.
Escrever sobre Beck num post do Facebook é muito difícil e até mesmo claustrofóbico, porque a grandeza de tudo o que conseguiu, não só para a sua própria figura histórica, mas sobretudo para a vida dos outros, não cabe num espaço que é sempre tão exíguo do ponto de vista atencional.
Se Freud sempre foi a figura mais popularizada do mundo da psicoterapia, Beck, por outro lado, é de longe a mais influente de todos os tempos. É caso para dizer que o público sabe quem é Freud mas que, no fim da linha, a sua vida é influenciada por Beck. Na verdade, há um Beck no interior de cada paciente que beneficiou da terapia cognitivo-comportamental e há um Beck em todas as relações que, por causa disso mesmo, ele conseguiu melhorar.
Tentando fazer aqui um balanço muito breve (e muito incompleto) da sua obra, podemos dizer que no interior da herança que Beck deixa como legado ao campo da saúde mental e aos pacientes de todo o mundo encontram-se as seguintes dádivas:
-Uma forma de fazer psicoterapia (a terapia cognitivo-comportamental) que se sujeita às mais variadas formas de escrutínio científico, resgatando o campo clínico da subjectividade e arbitrariedade dos modelos anteriores. A sua contribuição para a credibilização definitiva da psicoterapia é ímpar.
-O estabelecimento da psicoterapia como um modelo de acção que, de facto, ajuda as pessoas no aqui e agora e que, sobretudo, lhes dá ferramentas para lidarem com o seu mundo interno de uma forma mais equilibrada e racional.
-Uma linguagem moderna (atual nos anos 60 e atual agora) baseada na metáfora dos sistemas de processamento de informação, que permite uma comunicação inteligível e operacionalizável dentro da prática clínica e da comunidade científica.
-Um campo de acção que engloba um conjunto de metodologias e técnicas devidamente estruturadas que, de acordo com uma organização conceptual coerente com os diversos quadros clínicos, tem permitido ajudar milhões de pessoas em todo o mundo atingidas por estados depressivos, de ansiedade, de problemas na regulação dos impulsos, de stress pós-traumático, etc, etc...Algumas destas metodologias são completamente originais, criadas pelo próprio Beck. Outras são reatualizadas a partir de métodos retóricos e dialéticos provenientes dos filósofos da antiguidade greco-romana. Outras, ainda, são trazidas de colegas com quem partilhou influências mútuas (caso de Albert Ellis). Outras encontram-se a ser criadas neste preciso momento por muitos e muitos colegas de profissão espalhados pelo globo, incorporando novas ideias e novas tecnologias.
-Um modelo psicoterapêutico que, sendo dominante na área (com todos os constrangimentos epistemológicos que esse domínio pode impor dentro da área da própria psicoterapia e da psicologia em geral) é, no entanto, um modelo aberto à complementaridade com outros modelos e com novas linhas de acção, não estando, por isso, enclausurado sobre si mesmo. Também este facto garante a futura longevidade da terapia cognitivo-comportamental, que nunca esteve dependente da popularidade do seu criador (que, por comparação com Freud e outros, era uma autêntica anti-vedeta), mas sim da sua coerência interna, da sua capacidade de articulação e integração de novos conceitos e da sua contínua sujeição à inspeção científica. Digamos que a terapia cognitivo-comportamental vive de acordo com os mesmos princípios orientadores que apregoa aos seus pacientes: reajustando-se continuamente em função das evidências. Note-se como, por exemplo, em vez de "excomungar" a chamada terceira vaga da CBT (onde estão as terapias baseadas no mindfulness e na aceitação), o modelo de Beck rapidamente se tem tentado emparelhar com esta nova realidade. Beck, de facto, não era um dogmático, mas sim um pragmático: o que importa é sempre aquilo que funciona melhor.
Tendo morrido aos 100 anos, com uma vida preenchida a todos os títulos, Beck é um exemplo para todos nós no meio da nossa pequenez: não só pelo seu nível de influência dentro do mundo da psicologia (que dificilmente alguém alguma vez conseguirá igualar), mas sobretudo pelo seu espírito de abertura, independência e liberdade analítica que lhe permitiram perceber as coisas a partir de "fora da caixa" na época em que foi formado, bem como pela sua capacidade para estender pontes fortes na comunicação com os outros, algo de que muito precisamos nos dias que correrem.
Nos meus dias de trabalho todos os dias acontece Beck.
O psiquiatra americano Aaron T. Beck, considerado o pai da terapia cognitiva, uma abordagem desenvolvida na década de 1960 que revolucionou a psicoterapia, morreu esta segunda-feira aos 100 ...