10/03/2026
O cérebro sente a presença do cancro? E reage? Equipa da Champalimaud vai ajudar a encontrar resposta
Cientistas portugueses integram equipa internacional que está a desvendar a troca de informação entre as células cerebrais e os órgãos doentes. Há já uma certeza: o cérebro deteta o tumor e envia sinais que podem suprimi-lo ou fazê-lo crescer.
Em Ciência, quase sempre as descobertas mais complexas começam por perguntas simples. E estas também foram feitas em português: “Será que o cérebro sente que há um cancro? E como reage?”, explica Henrique Veiga-Fernandes, investigador principal da Fundação Champalimaud e elemento da equipa internacional que acaba de ser premiada com quase 22 milhões de euros para chegar às duas respostas.
A distinção, atribuída pelo Cancer Research UK e pelo National Cancer Institute (EUA), vai permitir nos próximos cinco anos estudar em detalhe a comunicação entre o cérebro e os órgãos com cancro. A investigação já estava no terreno e agora recebe financiamento para avançar ainda mais. “O cérebro é capaz de perceber, de sentir, a existência do cancro e tem uma resposta a essa presença” ou, dito de outra maneira, “a presença de um tumor leva a uma reação do cérebro”, resume o investigador.
“É um estudo para o desenvolvimento do cancro alargado ao estudo fundamental, no laboratório. Procuramos conhecimento fronteira, aquele que vai além do que já se sabe. É uma investigação de vanguarda, um salto no desconhecido”, diz Henrique Veiga-Fernandes. Os cientistas, de oito instituições nos EUA, Suíça, Reino Unido e Portugal, vão dar um ‘pulo de gigante’: conhecer as comunicações do cérebro para o cancro e a forma de estas serem sempre no sentido de o destruir.
Cérebro envia instruções para o órgão doente
“O cérebro envia instruções para o órgão [doente] e para o sistema imunitário e nesse intervalo há uma enervação [aumento dos nervos] e um diálogo entre o sistema nervoso e o sistema imunitário para destruir o cancro, mas, por vezes, não funciona e até promove o aumento do tumor”, simplif**a o cientista da Fundação Champalimaud. Face a esta constatação, “queremos saber qual é a estrada entre o cérebro e o sistema imunitário e agir nesse caminho para conseguir atuar sobre o cancro”.
Henrique Veiga-Fernandes admite que o cancro do pâncreas é o mais desafiante e, como tal, um dos focos. “Quando há cancro, há um aumento dos nervos em redor do órgão. No caso do pâncreas, aumentam muito e não permitem a entrada de células do sistema imunitário do próprio órgão” para iniciarem as tentativas de destruição do tumor. Os oncologistas chamam a isto um “tumor frio” - “o órgão deixa de ter infiltração das células imunológicas” - , e no caso do pâncreas poder-se-á mesmo dizer que é ‘gelado’.
'Pacemaker' para o cérebro
A ideia de um diálogo entre o cérebro e o cancro que se instala no organismo é pioneira e a forma de intervenção mantém o nível disruptivo. A equipa, que em Portugal deverá ter até seis investigadores, está a preparar um “pacemaker para o cérebro, não para intervir sobre a atividade elétrica do coração, mas dos neurónios envolvidos na atuação sobre o cancro”, ilustra Henrique Veiga-Fernandes. Na realidade, trata-se de “uma prótese neuronal, um implante na espinal medula - já foi utilizado em humanos para regular a frequência cardíaca, por exemplo - para fazer a regulação neuronal, permitindo que as células do sistema imunitário entrem no tumor, ultrapassando a barreira de nervos”, que se vai constituindo e aumentando quando há um tumor. Nuns casos por ação de substâncias produzidas pelo cancro, mas noutros por reação do próprio cérebro à presença do cancro.
Estes estudos têm cada vez menos doses de ficção científ**a. “Já temos resultados preliminares sobre os alvos terapêuticos e vamos estar em ensaios clínicos dentro de um ano”. Ou seja, a testar um fármaco que regule a ‘conversa’ entre os neurónios e o tumor para que as instruções, do sistema nervoso ao sistema imunitário, sejam contra o cancro e não a seu favor.
Até mesmo o implante não está num horizonte longínquo. “Também já temos prova de conceito [teste prático em pequena escala para atestar a viabilidade] para os implantes neuronais para tumores do pâncreas em animais e muitos resultados. Veremos se se repetem quando chegarmos aos humanos”, sublinha o cientista português. “Com a prótese ou os fármacos vai-se estimular a resposta do sistema e é uma nova classe de terapêuticas, no caso, produzidas pela regulação elétrica dos nervos a partir dos neurónios.”
Benefícios em cancros do pâncreas, pulmão ou cólon
Além do pâncreas, a equipa acredita que implantes semelhantes, direcionados para regiões específ**as da medula espinal, vão poder modelar a forma como os nervos comunicam com tumores no pulmão ou no cólon, por exemplo.
“Muitas das descobertas que transformam a medicina começam com investigação motivada pela curiosidade. Este desafio assenta em perguntas profundas e a história mostra que responder a essas perguntas conduz frequentemente ais avanços mais inesperados e transformadores”, relembra Henrique Veiga-Fernandes.
O grupo, InterCANCEption, é um de cinco que receberam financiamento para os seus trabalhos, num total de cerca de 107 milhões de euros, para compreender os mecanismos na base da doença.
Artigo da autoria de Vera Lúcia Arreigoso - Jornalista Expresso