04/01/2024
Vila Nova de Gaia, pelas palavras de José Rentes de Carvalho, no livro "Ernestina" (1998)
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“Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de maio de 1930”
“Histórias de festejos e romarias não me interessavam; nem as das curas milagrosas que tinham acontecido na capela do Senhor da Pedra”
“Quando em 1916 a família se mudou para Vila Nova de Gaia, para casa onde eu viria a nascer, ele aos sete anos já fumava, era o terror da escola de Santa Marinha, nela ganharia fama por rachar a cabeça da professora com um tinteiro, saltando depois do primeiro andar para a rua sem ter quebrado os ossos.”
“Foram pela margem a g***r a serenidade do domingo de Abril e entraram no tasco que ainda existe na esquina do cais com o largo onde começa a Rua Direita.”
“Apressaram-se a agarrá-lo para que não caísse desfalecido e estenderam-no num banco. Como o sangue não parava, enquanto alguns corriam a chamar o médico e os pais, os outros embrulharam-no num cobertor e, pegando nele ao colo, levaram-no para casa, que era ali a dois passos na Rua da Barroca.”
“A cheia ainda durou uma semana e ele pouco tempo depois foi promovido e passou a chefiar o posto da Afurada, nesta altura uma aldeia de pescadores pobres, agachada atrás das dunas que a abrigavam das fúrias do oceano.”
“Na margem sul, a nossa, a trajetória dos olhos era breve: começava na igreja redonda da Serra do Pilar, descia para os telhados dos armazéns de vinho, o convento das freiras, e ia parar nas árvores seculares da quinta de Campo Belo.”
“Foi vasto como um mundo, mas aos meus olhos de hoje o largo onde nasci – o Monte dos Judeus na boca do povo – é um espaço diminuto ao cimo de uma tosca e tortuosa escadaria medieval.”
“O senhor Miguel, que era eletricista e às vezes banqueiro dum caíque que tinha no cais das Freiras, disse que não era preciso ir a Lavadores, ao Canidelo, a praia nenhuma: banhos de mar tomavam-se ali mesmo no rio, quando a maré enchia.”
“Depois fomos ambos rua abaixo, a minha mão bem presa na sua, e quando virámos para a Calçada das Freiras, pareceu-me incrível o que via: o rio espraiava-se como um mar, dalgumas casas só espontavam chaminés, a água cobria até meio as paredes do convento”
“O caíque passou pelos armazéns de vinho e pela igreja de Santa Marinha, onde o adro estava coberto de água.”
“Um mês depois era a Festa dos Mareantes, que para mim na infância tinha sido tétrica e fonte de pesadelos. […] Seguiam-se então os Mareantes, a rufar em dezenas de tambores de todos os tamanhos num barulho de ensurdecer, e por fim um mar de gente.”
José Rentes de Carvalho é autor do Prefácio da obra "DOURO – MARAVILHAS DO PATRIMÓNIO / HERITAGE WONDERS", da autoria de Libório Manuel Silva https://fotografiaportugal.pt/site/shop/livros/douro-maravilhas-do-patrimonio-heritage-wonders/
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