21/10/2022
Os Conflitos de Interesses dos Ministros e a Liderança
Quando confrontada com uma pergunta acerca das relações da empresa do seu marido com o estado, a ministra Ana Abrunhosa, primeiro, fez um silencio longo. Depois, emocionou-se e finalmente acabou por ignorar a questão, não abordando sequer o assunto.
Quando confrontado acerca das relações da sua empresa e do seu pai com o estado, o ministro Pedro Nuno Santos respondeu que tinha um parecer da PGR e que estava dentro da legalidade. Delimitou a discussão à dimensão jurídica e “matou” logo ali o assunto.
Quando nos sentimos confrontados com situações de perigo temos três respostas típicas por onde escolher. “Congelamos”, ficando parados e não reagimos, fugimos da ameaça ou atacamos de volta a fonte do perigo.
A reação da ministra foi, num primeiro momento, “congelar” perante a ameaça com o seu silencio constrangedor e depois fugir, não respondendo.
A reação do ministro foi atacar de volta, afirmando a legalidade e usando um argumento de autoridade.
A um líder numa situação difícil como esta espera-se mais do que dar a resposta instintiva. Espera-se autoconsciência das suas emoções e do impulso inicial de resposta, mas depois espera-se autocontrole na resposta. Espera-se uma resposta intencional, ponderada e ajustada à situação, por mais difícil e desconfortável que possa ser.
A capacidade de liderar vai muito além do poder formal de um cargo. Implica ter a capacidade para inspirar, mobilizar e ser credível junto das pessoas. Esses poderes não vêm com o cargo. São depositados pelas pessoas no líder porque acreditam nele para fazer o melhor para o bem comum. Para isso acontecer é necessário acreditarem que o líder vai agir em função desse bem superior e vai levar em consideração os receios, as necessidades e aspirações de cada um.
Ao responder de uma forma defensiva e ignorando as dúvidas legitimamente levantadas pela situação, os líderes estão a enviar uma mensagem muito clara: “eu não vou ter esta conversa porque ela é desconfortável”. O desconforto ou receio de onde esta conversa possa levar são mais importantes do que as dúvidas que o assunto tenha legitimamente levantado. Foi uma resposta para encerrar a conversa.
Neste ponto é importante clarificar que o assunto neste texto é a liderança e não a questão substantiva das relações das empresas dos familiares dos ministros com o estado. Do ponto de vista da liderança, as duvidas levantadas são significativas e têm de ser abordadas, independentemente da razão assistir aos ministros ou não.
Ser um líder é ter a capacidade para ter conversas difíceis e desconfortáveis. Mesmo quando sente não haver motivo, mesmo quando acha que a razão está do seu lado e isso deveria ser suficiente.
Um líder não se deixa capturar pela mentalidade de refém das circunstâncias e tem a conversa difícil. Um líder reconhece a importância de não haver dúvidas sobre a sua ação. Reconhece a legitimidade de querer escrutinar o assunto e está disponível e cooperante para esse processo.
Um líder não se esconde detrás de um parecer nem do silêncio e tem a conversa difícil até que a dúvida tenha sido razoavelmente esclarecida e o seu estatuto e poder estejam intactos.