18/05/2026
Um tema que tinha aqui na gaveta e sobre o qual queria escrever já há algum tempo: o aumento das notícias sobre violência doméstica ou de género. Há vários movimentos a acontecer ao mesmo tempo:
1. Maior visibilidade e denúncia
Hoje há maior consciencialização social, campanhas públicas, legislação mais clara e menos tolerância cultural. Isso faz com que mais vítimas denunciem, mais pessoas saibam identif**ar sinais e mais casos sejam registados. Ou seja, parte do aumento é, na verdade, menos silêncio.
2. Mudanças nas relações
Estamos numa época em que há maior autonomia económica e emocional das mulheres, questionamento de papéis tradicionais de género e redefinição de masculinidade. Para algumas pessoas, especialmente homens com modelos cognitivos mais rígidos, isto pode ser vivido como perda de controlo, identidade ou estatuto. A violência, nesses casos, surge como uma tentativa disfuncional de recuperar poder.
3. Fatores de stress
Há condições que aumentam o risco de comportamento violento: stress económico e precariedade, isolamento social (agravado após a pandemia), consumo de álcool ou substâncias, saúde mental fragilizada. A violência raramente surge do nada, ela cresce em contextos de desregulação emocional e falta de recursos internos.
4. Cultura digital
A internet trouxe dinâmicas novas: comunidades que reforçam ressentimento e misoginia, exposição a modelos relacionais distorcidos (controlo, ciúme, posse), violência psicológica e sexual online. Há uma radicalização pública de alguns discursos, sobretudo em grupos mais jovens.
5. Discursos políticos
Em períodos de instabilidade social, económica ou cultural, há frequentemente um regresso a identidades mais rígidas: “o verdadeiro homem”, “a mulher tradicional”, “os valores corretos”, “a ameaça feminista”.
Em vários movimentos políticos contemporâneos vemos uma valorização de controlo, hierarquia, dominância, força, desconfiança da vulnerabilidade, e isto pode legitimar, de forma explícita ou subtil, dinâmicas relacionais mais coercivas.
Caso estejas numa situação de violência doméstica, ou se conheces alguém nessa situação, vê neste carrossel o que podes fazer ou como deves de agir.