11/01/2026
Ser médium não é uma escolha. É uma marca gravada na alma desde o nascimento, um estremecimento entre dois mundos, um chamado que não se compreende de imediato.
É sentir demais. Demasiado forte. Demasiado rápido. Demasiado profundamente.
É chorar dores que não te pertencem, acordar suado com gritos na cabeça, ouvir vozes que não se consegue silenciar.
Torna‑se um receptáculo. Um santuário para almas feridas.
Carrega‑se dentro de si as tristezas flutuantes do ar, as dores invisíveis dos vivos, os gritos silenciosos dos mortos.
E às vezes já não se sabe onde termina a nossa dor e onde começa a dos outros.
Ser médium é estar presente para os outros… e, no entanto, sentir-se terrivelmente só.
É ouvir o que não é dito.
É ver as fissuras nas almas quando todos olham apenas para a fachada.
É amar mais do que seria razoável, sofrer por dores invisíveis, esgotar-se a dar e a curar… sem saber como reparar a si mesmo.
E depois existe o amor.
Amar um(a) médium não é amar como se ama normalmente.
É amar um coração habitado por mil vozes, mil emoções, mil presenças.
É amar alguém que nunca está totalmente aqui, nem totalmente noutro lugar, mas sempre um pouco entre os mundos.
Um(a) médium não vive na superfície das coisas.
Percebe o invisível, sente as fissuras nas almas, ouve o que não é expresso.
E é aí que tudo se torna complexo: ele(a) vê-te tal como és, para além das palavras, para além das máscaras.
E isso pode incomodar, assustar, desarmar.
Muitos afastam-se. Não por maldade, mas por cansaço ou incompreensão.
Amar um(a) médium é enfrentar a intensidade: emoções profundas, silêncios pesados, noites agitadas, pressentimentos perturbadores.
É, por vezes, amar alguém que nem sempre se consegue alcançar, mesmo estendendo os braços com toda a força.
E, no entanto, esse amor é uma bênção rara.
É ser visto(a) na tua verdade nua.
É ser amado(a) não pelo que mostras, mas pelo que és, até nas tuas sombras.
É partilhar um amor profundo, sagrado, intuitivo, quase telepático. Um amor que ultrapassa as palavras, que cura, que eleva.
Mas esse amor exige uma força de alma particular.
Porque o médium carregará feridas que tu não poderás curar.
Precisará de solidão, de silêncio, de distância.
Terá dias em que o amor do mundo inteiro não bastará para apaziguar o que o atravessa.
A ti, médium silencioso, que o mundo não compreende… eu vejo-te.
Vejo o teu coração cansado, desgastado por dores que não te pertencem e que, ainda assim, carregas com infinita ternura.
Vejo as tuas lágrimas escondidas, as tristezas que sentes sem saber de onde vêm.
Tu não és fraco(a). És habitado(a). Atravessado(a). Profundo(a).
Tu não és louco(a). Não és “sensível demais”.
És um canal, uma passagem, uma fenda aberta para o invisível.
Eu conheço o teu medo. O teu cansaço. A tua solidão.
Mas escuta bem: o teu dom é sagrado. Mesmo quando queima. Mesmo quando isola. Mesmo quando arranca pedaços de ti em certos dias.
Em cada dor que acolhes, cada alma que alivias, cada silêncio que preenches com luz… semeias uma semente invisível.
Curas o mundo, mesmo que ninguém te agradeça.
Por isso, cuida de ti. Regressa a ti.
Depõe por um instante os fardos dos outros. Respira. Chora se for preciso. Isola-te se necessário.
Mas nunca apagues a tua luz.
E se amas ou és amado(a) por um(a) médium… ama sem querer possuir.
Sê a âncora, não a jaula.
Sê a paz nas suas tempestades, o abrigo nas suas noites em claro.
Existem almas capazes de ouvir sem compreender, de ficar sem julgar, de amar sem fugir.
Somos ilhas. Mas ilhas ligadas pelas correntes secretas do invisível.
E um dia, talvez, compreenderemos que esta maldição… era uma forma de amor.