15/11/2025
Na década de 1950, havia um ritual diário em praticamente todas as salas de jardim de infância — tão previsível que dava para acertar o relógio por ele.
Depois das canções, dos lápis de cor e da roda de conversa.
Depois dos biscoitos de mel e das caixinhas de leite.
A professora diminuía as luzes.
Um disco começava a girar no toca-discos — algo suave, gentil, tranquilo.
E vinte pequenos corpos se estendiam sobre tapetinhos listrados ou tapetes coloridos, sapatos empurrados para debaixo de pequenos catres, cobertores gastos puxados até o queixo.
A sala inteira exalava um suspiro coletivo.
Era hora do descanso.
A soneca.
Para milhões de crianças que cresceram nos anos 1950, 60 e início dos 70, isso era tão fundamental quanto tinta guache e aprender o alfabeto.
E não era apenas “tempo livre”.
Era parte do currículo.
Educadores acreditavam — com razão — que momentos estruturados de silêncio ajudavam as crianças a crescer: davam espaço para sentimentos baixarem, imaginações fluírem e pequenos corações se reorganizarem antes da correria da tarde, com jogos de contar, blocos de montar e descobertas infinitas.
A ciência confirmava: corpos e cérebros infantis ainda estavam em pleno desenvolvimento.
Descansar não era luxo; era necessidade fisiológica.
As professoras se tornavam guardiãs da calma.
Vozes suaves.
Passos leves entre filas de crianças adormecidas.
Às vezes uma história lida quase em sussurro.
Uma mão ajeitando um cobertor.
Um farol de serenidade na meia-luz.
Para muitas crianças, esse era o único momento de verdadeira quietude no dia — uma pausa entre a lancheira e a amarelinha, entre aprender as letras e aprender a dividir.
Algumas realmente dormiam, exaustas da manhã agitada e da novidade esmagadora daquele novo mundo chamado escola.
Outras ficavam deitadas, olhando partículas de poeira dançarem no raio de luz entre as cortinas, envoltas naquele devaneio que só acontece quando você tem cinco anos e o mundo ainda não lhe ensinou a viver com pressa.
Até as que odiavam a soneca — os inquietos, os que contavam os quadrados do teto sem fechar os olhos — aprendiam algo valioso:
Às vezes é preciso ficar quieto mesmo sem querer.
Às vezes descansar faz parte do trabalho.
Mas nos anos 1970 e 80, algo mudou.
A pressão acadêmica cresceu.
O jardim de infância deixou de ser sobre socialização e brincadeira e passou a ser sobre “preparação escolar”, pré-leitura e desempenho.
Os horários apertaram.
As avaliações começaram mais cedo.
Pais temiam que seus filhos “ficassem para trás”.
E de repente, a soneca passou a parecer perda de tempo.
Uma a uma, as escolas eliminaram o descanso obrigatório.
Os tapetinhos foram enrolados e guardados.
O toca-discos deu lugar aos retroprojetores, depois aos computadores, depois aos tablets.
Nos anos 1990, a soneca praticamente desapareceu das escolas públicas, sobrevivendo apenas em pré-escolas e creches para os bem pequenos.
Hoje, a maioria das crianças passa o dia inteiro em atividades estruturadas — grupos de leitura, centros de matemática, computadores, recreio (quando existe), almoço e mais instrução.
Sem pausa.
Sem silêncio.
Sem permissão para simplesmente… respirar.
E depois nos perguntamos por que a ansiedade infantil disparou.
Para quem viveu aquela época, a memória permanece vívida:
As fileiras de tapetinhos listrados.
O chiado da agulha do toca-discos encontrando o sulco.
O cheiro do cobertor daquele colega que talvez só fosse lavado duas vezes por ano.
E a magia de ser “permitido” — ou até esperado — que você fechasse os olhos e descansasse no meio do dia.
Naptime não era apenas dormir.
Era aprender que o descanso tem valor.
Que o silêncio tem função.
Que você não precisa ser produtivo a cada minuto.
Era uma lição que só percebemos depois de crescer e entrar num mundo que nunca desacelera, nunca para, e ainda nos faz sentir culpa por precisar de uma pausa.
Aos pais que lembram da soneca na escola: seus filhos provavelmente não têm isso.
E estão sendo obrigados a funcionar em velocidade máxima, o dia inteiro, todos os dias.
Aos professores que lutam para manter descanso e brincadeira na educação infantil: vocês não são “moles”.
Estão defendendo o que a ciência sempre soube — crianças pequenas precisam de pausas para se desenvolverem bem.
A quem sente culpa por descansar: um dia ensinamos isso a crianças de cinco anos.
Talvez devêssemos reaprender.
E aos que acham que a infância hoje é “fácil demais”:
As crianças do jardim de infância atualmente têm mais tempo acadêmico estruturado do que alunos da terceira série dos anos 1950.
Eliminamos as pausas.
Talvez essa seja a verdadeira lição:
Não que as crianças devam dormir metade do dia — mas que descanso, silêncio e tempo não estruturado não são indulgências.
São essenciais.
Até os “grandes” precisam de um pouco de soneca, de vez em quando.
Os adultos também.
Nós já soubemos disso.
Já colocamos isso no meio do dia, logo entre as canções da manhã e as brincadeiras da tarde.
Apagávamos as luzes, colocávamos um disco, e dávamos a vinte pequenas pessoas a permissão de parar de tentar tão forte.
Talvez seja hora de lembrarmos como fazer isso.