07/01/2026
Era uma vez uma menina
que cresceu numa casa onde os gritos eram mais altos do que o silêncio.
Ela viu coisas que não sabia nomear.
Sentiu medos que não sabia explicar.
E aprendeu cedo que defender-se
nem sempre era possível.
Então fez o que qualquer criança faria
quando não há braços suficientes para a segurar.
Endureceu.
Criou uma capa dura à sua volta.
Uma armadura invisível.
Não para afastar os outros,
mas para conseguir f**ar de pé.
Essa capa partia muitas vezes.
E cada vez que partia,
ela colava.
Remendava.
Ajustava.
E seguia.
Até que um dia, já crescida,
percebeu que estava cheia de fissuras.
E que por baixo daquela frieza
existiam feridas abertas
que nunca tinham sido vistas.
Foi aí que ela entendeu algo importante:
a frieza que tantos apontavam
não era rejeição.
Era proteção.
Fechar essas feridas levou tempo.
E ainda leva.
Porque há dores que não desaparecem —
aprendem-se a cuidar.
E a menina, agora mulher,
aprendeu devagar
que não precisava de mais armadura.
Precisava de presença.
Se esta história te tocou,
talvez haja em ti uma ferida
que não precise de ser escondida.
Talvez precise apenas
de ser vista.