23/03/2026
A NATUREZA PSICOBIOLÓGICA DA PERTURBAÇÃO DE PÂNICO —
Não é estranho encontrar uma pessoa com perturbação de pânico que tenha antecedentes familiares semelhantes. Às vezes, esses antecedentes não estão diagnosticados, mas, se analisarmos os comportamentos, é fácil perceber tais semelhanças. Porquê?
“Desde a primeira entrevista com a mãe da Sandra, notavam‑se claros sintomas de agorafobia. Nunca saía de casa sozinha, passava horas na cama, ‘compreendia’ os medos da filha e contribuía para a sua manutenção, incentivando a evitação, deitando‑se com ela e permitindo tudo aquilo que a levava a f**ar cada vez mais isolada. A Sandra contava que também a sua avó (mãe da mãe) estava sempre sozinha, em casa, e referia‑se a ela como uma mulher arisca e deprimida.”
Vulnerabilidade biológica: embora seja verdade que não existam genes específicos que determinem o desenvolvimento da perturbação de pânico, vários estudos defendem a existência de uma predisposição para a vulnerabilidade a desenvolvê‑la em determinadas pessoas. Contudo, isto não signif**a que possuir essa predisposição implique vir a sofrer ataques de pânico. Estes fatores biológicos ajudariam a explicar porque é que este transtorno tende a surgir em algumas famílias. Ou seja, se uma pessoa sofre de perturbação de pânico, é mais provável que outro membro da mesma família também a apresente, comparando com o resto da população. Mas, em nenhum caso, esta predisposição, por si só, desencadeia o transtorno.
Embora seja frequente a ideia de que as pessoas herdam estas características dos seus progenitores, trata‑se apenas de uma crença que, além de carecer de fundamentos científicos, tem um problema maior: transmite à pessoa a convicção de que, sendo algo herdado, já nada pode fazer para mudar (a não ser, talvez, tomar medicação). De acordo com os autores deste livro, esta convicção conduz frequentemente ao desespero e à desistência da luta contra a perturbação.
Na verdade, são outros os fatores que, em conjunto com esta predisposição, interagem. E são esses fatores, por outro lado, que nos conduzem, como veremos depois, ao planeamento do tratamento apropriado para este distúrbio. Estes fatores têm uma natureza psicológica e psicossocial (isto é, interpessoal) e definem uma vulnerabilidade psicológica:
Medo das sensações corporais, que são interpretadas de forma catastróf**a ou como mais perigosas do que realmente são. Crenças de que um dano físico ou mental iminente vai ocorrer, podendo levar a pessoa a acreditar que está perante morte iminente, perda de consciência ou de controlo. Estudos mencionados por Barlow & al. (2008) indicam que tanto as pessoas que sofrem de perturbação de pânico como aquelas que não chegam a apresentar todas as características para um diagnóstico clínico têm maior consciência interoceptiva, isto é, detetam muito fácil e frequentemente alterações corporais.
Sensibilidade à ansiedade, ou seja, a interpretação da ansiedade como algo prejudicial no plano mental, físico ou social, faz com que a pessoa se assuste muito com a perceção das sensações corporais. A sensibilidade à ansiedade desenvolve‑se através de experiências de vida adversas, como viver de perto doenças ou a morte de um ente querido, ou por aprendizagem vicária — isto é, quando uma pessoa observa uma resposta ansiosa em alguém próximo e aprende a responder da mesma forma. Desde crianças recebemos continuamente informação sobre o nosso ambiente; se essa informação é transmitida como perigosa, desenvolvemo‑nos sob a crença de que vivemos num mundo inseguro, onde podemos sofrer danos graves a qualquer momento.
A existência de doenças na história de desenvolvimento destas pessoas, nomeadamente de tipo respiratório, tem sido identif**ada como preditora do aparecimento da perturbação de pânico. Tudo indica que a existência de doenças respiratórias em familiares próximos desempenha o mesmo papel (Barlow & al., 2008).
Finalmente, a ansiedade de separação na infância pode ser considerada um componente de vulnerabilidade para desenvolver esta perturbação (e outras) na idade adulta.