23/01/2026
O mau uso da PNL, da hipnose e da chamada “neurocibernética”.
Nos últimos anos tem-se assistido a uma proliferação acelerada de práticas que se autodenominam PNL avançada, hipnose profunda, neurohacking ou neurocibernética. Muitas delas recorrem a linguagem científica, conceitos de neurociência ou física moderna, mas sem qualquer compromisso real com rigor, validação ou ética.
Este fenómeno não é apenas um problema académico. É um problema clínico, cognitivo e humano.
1. Linguagem não é magia — é engenharia cognitiva
A linguagem tem efeitos mensuráveis no cérebro. Isto está bem documentado em áreas como:
neurociência cognitiva,
psicologia experimental,
processamento preditivo (predictive processing),
redes de saliência e controlo executivo.
Quando alguém fala, não está apenas a “comunicar ideias”: está a modular atenção, emoção, previsão e resposta autonómica.
Por isso mesmo, usar linguagem sem compreender os seus efeitos é irresponsável.
O problema começa quando técnicas linguísticas são usadas:
sem modelo funcional,
sem compreensão dos estados mentais envolvidos,
sem critérios de estabilidade do sistema nervoso.
2. Confusão não é transformação
Existe um erro grave e recorrente: confundir confusão cognitiva com mudança terapêutica.
Induzir:
excesso de metáforas,
narrativas não fechadas,
saltos conceptuais arbitrários,
“dimensões”, “vidas passadas” ou “níveis vibracionais”,
pode desorganizar temporariamente o pensamento consciente — mas isso não equivale a reorganização funcional.
Na verdade, do ponto de vista neurocientífico, este tipo de prática tende a:
aumentar carga alostática,
fragmentar coerência narrativa,
gerar ansiedade latente ou dissociação subtil,
reduzir a capacidade crítica do cliente.
Isto não é cura. É entropia cognitiva.
3. Estados alterados exigem critérios de coerência
Qualquer intervenção que altere estados mentais deve respeitar critérios mínimos:
estabilidade (o estado tem de se sustentar sem esforço),
integração (o conteúdo deve regressar à experiência quotidiana),
direcionalidade (a intervenção deve servir um objectivo claro),
reversibilidade (o sistema deve conseguir regressar sem colapso).
Quando estes critérios não existem, o que se produz não é crescimento — é desorganização.
4. A ausência de modelo é o maior risco
Um operador sem modelo funcional:
não sabe o que está a activar,
não sabe o que está a desactivar,
não sabe quando parar,
nem como fechar correctamente processos mentais abertos.
Isto é especialmente perigoso em pessoas vulneráveis, com:
ansiedade,
trauma,
dor crónica,
doenças psicossomáticas,
ou histórico de dissociação.
Sem modelo, tudo parece “resultados”. Até ao dia em que aparecem os danos.
5. Ética não é marketing
Um princípio fundamental deveria ser óbvio:
Se uma técnica não promove coerência global do sistema, não deve ser usada.
A ética não se mede por promessas, seguidores ou testemunhos emotivos.
Mede-se por:
previsibilidade dos efeitos,
respeito pela autonomia cognitiva do outro,
capacidade de explicar o porquê e o como da intervenção,
e disposição para dizer “não sei” quando não se sabe.
6. Ciência não é inimiga da profundidade
Existe uma falsa oposição entre rigor científico e profundidade experiencial.
Essa oposição é conveniente para quem não domina nenhum dos dois.
É perfeitamente possível:
trabalhar com estados profundos,
usar linguagem de alto impacto,
operar abaixo do nível verbal,
sem abandonar a ciência, a clareza e a responsabilidade.
Quando alguém precisa de mistério para esconder falta de estrutura, isso não é espiritualidade nem avanço — é fragilidade metodológica.
Conclusão
PNL, hipnose e abordagens neurocognitivas são ferramentas poderosas.
Ferramentas poderosas exigem engenharia, não improviso.
O futuro destas áreas não pertence a quem fala mais alto, promete mais ou confunde mais.
Pertence a quem compreende o sistema nervoso como um sistema, e age com precisão, sobriedade e respeito.
Tudo o resto é ruído.
Texto de - MIVS 🦋