28/08/2022
Em 1909, Freud apresenta “Cinco Conferências sobre Psicanálise”, na Clark University de Worcester, Massachussetts. Em uma das conferências ele profere:
"Receia-se que a psicanálise seja nociva, receia-se também o processo de chamar à consciência do paciente os instintos se***is recalcados, como se assim se corresse o perigo de estes instintos destronarem os seus imperativos éticos mais elevados. Constata-se que o doente tem feridas na sua vida psíquica, mas evita-se tocar nelas , para assim não aumentar o seu sofrimento. Podemos aproveitar esta analogia. É sem dúvida mais benéfico não tocar em feridas quando com isso só se consegue infligir dor. Mas o cirurgião, ao preparar uma intervenção que deverá restabelecer a saúde de modo duradouro, não se coíbe de examinar e tocar no foco da infecção. A ninguém ocorre culpá-lo pelos danos inevitavelmente causados pelo exame ou pela reacção do corpo à operação, desde que esta seja bem-sucedida e o paciente restabeleça definitivamente o seu estado de saúde depois de um agravamento temporário. O mesmo é válido para a psicanálise, que tem o direito de fazer as mesmas exigências que a cirurgia; o mal-estar provocado pela psicanálise durante o tratamento é, pressupondo uma boa técnica, incomparavelmente menor do que o decorrente de uma cirurgia e perfeitamente negligenciável tendo em conta o grave sofrimento do paciente à partida. Já o receio de que o paciente deixe de ser um homem civilizado assim que os seus instintos se libertem do recalcamento é totalmente infundado, pois falha em considerar um facto que a experiência demonstra sem margem para dúvidas, a saber, que o poder psíquico e somático de um desejo impulsivo insuficientemente recalcado é de longe maior quando este desejo é inconsciente em vez de consciente, de tal modo que revelá-lo à consciência só pode enfraquecê-lo. O desejo inconsciente, sendo independente de todas as forças que se lhe opõem, não pode ser influenciado, ao passo que o desejo consciente é inibido por tudo o que é igualmente consciente e por tudo o que lhe ofereça resistência. O trabalho psicanalítico é assim um melhor substituto para o recalcamento falhado, e nessa qualidade está ao serviço precisamente dos valores mais altos da civilização."