01/03/2026
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Foi internada como “histérica”. Tornou-se uma das mentes que moldaram a psicanálise.
Sabina Spielrein chegou ao hospital psiquiátrico de Zurique aos dezenove anos, em 1904. Chorava compulsivamente, sofria crises intensas de ansiedade e recebeu o diagnóstico comum à época para mulheres: histeria. O rótulo encerrava o caso. Mas por trás do sofrimento havia uma formação intelectual sólida — falava vários idiomas e tinha forte base em filosofia e ciências.
Seu médico era Carl Gustav Jung. A relação evoluiu para além do tratamento clínico: tornou-se aluna, colaboradora e interlocutora intelectual. Participava das discussões teóricas, questionava, propunha hipóteses. Não foi figura passiva no desenvolvimento inicial da psicologia analítica.
Em seus primeiros trabalhos, elaborou a ideia de que impulsos destrutivos fazem parte do desenvolvimento psíquico e estão ligados ao processo de transformação. O conceito antecipava formulações posteriores sobre a pulsão de morte, sistematizadas anos depois por Sigmund Freud. Freud reconheceu sua inteligência em correspondências, mas sua contribuição raramente recebeu o devido destaque na consolidação da teoria.
Spielrein formou-se em medicina, tornou-se psicanalista e publicou estudos relevantes sobre linguagem infantil, ambivalência afetiva e a dinâmica entre amor e agressividade. Muitos fundamentos da psicologia do desenvolvimento aparecem de forma embrionária em seus textos.
Apesar disso, seu nome perdeu espaço nos relatos oficiais da psicanálise. As narrativas centrais privilegiaram Jung e Freud. Ela tornou-se referência marginal.
Em 1923, retornou à União Soviética. Atuou como psicóloga infantil e participou da criação de instituições educacionais experimentais. Defendia a educação como instrumento de transformação psíquica e social.
Em 1942, durante a ocupação nazista de Rostov-on-Don, Spielrein e suas duas filhas foram executadas junto a milhares de judeus na vala comum de Zmiévskaja Balka.
Sua obra permaneceu obscurecida até a década de 1980, quando cartas e diários foram redescobertos em arquivos europeus. A partir daí, a historiografia da psicanálise foi obrigada a reavaliar seu papel.
Hoje, Sabina Spielrein é reconhecida como uma das figuras pioneiras da psicanálise moderna. Não como coadjuvante, mas como autora de ideias que antecederam e influenciaram conceitos centrais do século XX.