12/04/2026
A Desilusão da Era de Aquário
Ansiávamos um mundo desperto, ainda não aconteceu.
"Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente." Krishnamurti disse isto há décadas e nós acenámos com a cabeça, sublinhámos a frase, partilhámo-la com um pôr do sol em fundo e voltámos ao que estávamos a fazer. Que é, precisamente, adaptar-nos a uma sociedade doente com uma eficiência admirável.
Mas comecemos pelo princípio, porque a Era de Aquário não é apenas um álbum dos anos 70, embora também seja isso. É um conceito astrológico que diz que o eixo da precessão da Terra vai transitando, ao longo de milénios, pelos signos do zodíaco, e que estamos agora a entrar na era regida por Aquário, o signo da humanidade, da fraternidade, do conhecimento partilhado e da consciência coletiva expandida. Cada era dura aproximadamente 2.160 anos e, como seria de esperar numa era dedicada ao conhecimento partilhado, ninguém concorda exactamente em quando esta começou. Alguns dizem que já começou, outros que estamos na transição, outros apontam para 2597. A ironia escreve-se a ela própria.
Era de Aquário, Liberdade, Responsabilidade, Fraternidade|Coletivo… Soa bem, não soa? Soa mesmo muito bem. Era suposto sermos todos mais despertos, mais livres, mais solidários, mais evoluídos. A humanidade finalmente a crescer, como uma criança que se torna adulta e larga os brinquedos da violência, do fanatismo e da ignorância. Temos 2.160 anos para o fazer, o que é simultaneamente reconfortante e assustador, dependendo do dia. Esperávamos maturidade coletiva. Caiu-nos nos braços o achismo universal com as redes sociais. Obrigada, Urano.
O achismo, convém dizê-lo com o carinho que merece, é uma das forças mais destrutivas do nosso tempo precisamente porque se apresenta como pensamento. Tem a forma da opinião, a energia da convicção e o conteúdo de uma conversa de bar depois do terceiro shot. Toda a gente tem uma verdade. Toda a gente a proclama em voz alto, com hashtag e tudo. E ninguém, absolutamente ninguém, parece minimamente incomodado com o facto de verdades contraditórias não poderem ser todas absolutas ao mesmo tempo. A lógica saiu do jogo.
Os mestres, esses que dedicaram vidas inteiras a estudar, a questionar, a desmontar as suas próprias certezas, morreram cheios de dúvidas. Sócrates sabia apenas que não sabia nada. Montaigne passou a vida a questionar-se a si próprio, o que na época era filosofia e hoje seria diagnosticado como transtorno de ansiedade — vulgo, medo — generalizada e medicado em conformidade. Sim, o que está por detrás da ansiedade é puro medo.
Krishnamurti passou décadas a dizer às pessoas que não o seguissem, que o pensamento livre não admite gurus, que a verdade não cabe em nenhum sistema. Nós ouvimos, acenámos e fizemos dele um guru. É quase cómico se não fosse tão exatamente o problema.
Porque o busílis não é a liberdade. A liberdade é uma conquista sagrada e cara, paga com sangue e tempo e gerações de mulheres e homens que não viveram para a ver. O busílis é a liberdade sem o seu par inseparável: o conhecimento. E aqui há uma distinção que vale a pena fazer devagar, porque não é a mesma coisa ter informação, ter conhecimento e ter sabedoria. São três andares do mesmo edifício e a maioria de nós vive no rés-do-chão convencida de que está na penthouse com whirlpool bath.
A informação é o que lemos, ou melhor, é o título do artigo que não abrimos. O conhecimento é o que integramos, quando temos paciência para isso, que raramente temos. A sabedoria é o que vivemos, testamos, erramos, revisitamos e transformamos em algo genuinamente nosso. E nós ficámos pelas parangonas. Pelo resumo de três linhas de um livro que nunca comprámos. Pela opinião de alguém que também não leu o livro mas fala com uma segurança que intimida e que tem muitos seguidores, o que, aparentemente, é o novo critério de verdade. Valha-nos os deuses!
Krishnamurti disse também: "Tu és o mundo e o mundo és tu." Nós vemos o mundo como nós somos, não como ele é. A nossa realidade é sempre uma projeção, sempre um filtro, sempre a soma das histórias que nos contaram e que decidimos, consciente ou inconscientemente, acreditar. O imbróglio começa quando nos esquecemos disso. Quando a nossa verdade parcial e mastigada por outros se transforma em verdade absoluta e universal que, generosamente, decidimos impor aos outros com a subtileza de um martelo pneumático.
Classif**amos pessoas publicamente com a desenvoltura de quem distribui cromos na escola primária. Cancelamos, julgamos, condenamos, com a certeza serena de quem nunca considerou, nem por um segundo, que pode estar errado. Vamos parar um segundo: cancelamos pessoas que não concordam connosco. Deixa respirar. Isto é… censura. E aqui está o paradoxo que ninguém quer ver: a mesma liberdade que exigimos para nós próprios, negamo-la alegremente a quem pensa diferente. Porque mesmo que o argumento do outro nos pareça absurdo, ridículo ou insuportável, todos, todos, todos temos o direito de o dizer. A liberdade de expressão não é uma dieta em que decidimos o que os outros podem ou não engolir.
A liberdade de expressão não é uma dieta em que decidimos o que os outros podem ou não engolir. E por falar em consumo, voltamos ao episódio seguinte, ao próximo ciclo de indignação programada que nos mantém ocupadas, convictas e magnif**amente distraídas de pensar por nós próprios.
Krishnamurti, lá de onde estiver, continua a não estar surpreendido. Ele sabia que a consciência não aparece no meio de umas minis, não se partilha com hashtag e não chega por streaming. Constrói-se. Devagar, com curiosidade, com leitura, com escuta e com a coragem rara de mudar de ideias. Essa, sim, seria a verdadeira Era de Aquário, aquela que nos pede o mais difícil de tudo: entrar em nós antes de tentar mudar o mundo. Porque só dá ao coletivo quem primeiro foi honesto consigo próprio. O resto é barulho nem sempre com boa intenção.
E tu, o que vais fazer com o resto da tua vida?
By Vera