06/03/2026
Entrevista APG | Mafalda Bastos de Moura
"A ação climática está num impasse: por um lado, multiplicam-se as promessas internacionais e os planos técnicos; por outro, a realidade dos territórios continua a agravar-se, com comunidades cada vez mais expostas, perda de meios de subsistência, dos seus recursos e do património. O problema já não está na falta de conhecimento científico, mas na distância entre as decisões políticas e as vivências locais.
A ação climática não pode ser desenhada apenas em gabinetes técnicos ou em fóruns distantes que favorecem quem tem mais recursos económicos. Precisa de nascer na sociedade, pelas ruas, nas escolas, nas conversas entre cidadãos que sentem, dia após dia, ano após ano, os impactos concretos da crise climática. É aí que se percebe quem é mais vulnerável, onde falham os serviços, onde faltam planos, quando as promessas se esvaziam e as ferramentas de resiliência demoram a chegar. E é aí, sobretudo, que se descobre que soluções fazem sentido no contexto local. As áreas rurais, muitas vezes esquecidas pelo Governo central, são um exemplo urgente. Isoladas geograficamente e problemas de esvaziamento pela migração para as cidades, enfrentam riscos crescentes, mas também guardam um potencial enorme: comunidades com forte ligação à terra, ecossistemas resilientes e saberes tradicionais que são fundamentais para uma transição justa, segurança climática e sumidouros de carbono. Apoiar estas regiões não é só uma questão de equidade, é uma estratégia essencial para um futuro integrado, justo e sustentável.
Para isso também exige mais mecanismos de participação e capacitação que vão além da consulta simbólica: orçamentos participativos climáticos, comissões mistas com cidadãos (pedidas pela Lei de bases do Clima), acesso aberto a dados espaciais, formação em literacia climática e, sobretudo, vontade política para ouvir e entregar.
Mas ouvir não basta se a comunidade não tem meios de agir. É urgente investir mais em capacitação local: desenvolver empregos verdes acessíveis, oferecer formações práticas em economia circular, gestão florestal e agrícola ecológica, adaptação e energia renovável e descentralizada, e garantir que essas oportunidades cheguem também às regiões mais isoladas.
Além disso, os eventos e fóruns sobre clima precisam ser descentralizados, não podem concentrar-se sempre nas grandes cidades. Só assim conseguiremos recolher recomendações autênticas, ouvir os desafios reais do interior e construir políticas que reflitam a diversidade territorial de Portugal.
É através da Geografia que aprendemos a analisar as dinâmicas e a distribuição de recursos no território, a fundamentar diagnosticamente os problemas e as vulnerabilidades, e a mapear não só os riscos climáticos, mas também a exposição real das comunidades. Essa leitura só faz sentido se for completa, integrando dados técnicos, saberes locais, indicadores de exposição e justiça social. E só assim pode-se orientar uma educação e cidadania ambiental crítica, capaz de transformar o território. Por fim, uma resposta climática só será eficaz se tiver uma base geográfica situada, contextualizada e justa.
A ação climática deve ser entendida, antes de mais, como resposta preventiva e estruturante para reduzir danos e impactos, e não apenas como uma reação posterior aos desastres. Eventos recentes, como as tempestades e precipitações extremas ou os incêndios florestais recorrentes, demonstram que continuamos a atuar sobretudo após a ocorrência, mobilizando milhões de euros em respostas de emergência e reconstrução, esquecendo a urgência a longo prazo."
https://apgeo.pt/117-mafalda-moura