07/04/2026
Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa, publicado na edição de 26 de Março de 2026 do Jornal de Leiria, intitulado - "O desafio do paracetamol: escutar nas entrelinhas".
Texto integral aqui:
“Mamã, já ouviste falar daquele desafio dos adolescentes nas redes sociais com medicamentos?” A pergunta da minha filha surgiu de forma aparentemente casual, num final de tarde, há cerca de duas semanas. Tinha sido tema de conversa na escola entre colegas e, depois, em sala de aula com uma das professoras. O tom era de curiosidade. Mas o assunto está longe de ser inocente. É fundamental que nós adultos (e.g. pais, educadores, profissionais de saúde, jornalistas) estejamos atentos e disponíveis para conversar, esclarecer e, sobretudo, ouvir. Perguntar sem julgar. Informar sem dramatizar. Ir ao encontro do significado deste agir, assegurando a sua protecção. E dar atenção à característica fundamental do risco – a comunicação de desejos intensos e apressados, que precisam de uma resposta diferida e ponderada que promova a capacidade para pensar e crescer.
Nas últimas semanas, o chamado “desafio do paracetamol” ganhou visibilidade mediática. Foi chamada de capa no Jornal Expresso e motivou alertas formais por parte da Ordem dos Médicos e da Direção-Geral da Saúde. Em causa está a ingestão de doses elevadas de paracetamol, um medicamento amplamente utilizado nas nossas casas, frequentemente percepcionado como inócuo, mas que comporta riscos severos quando utilizado de forma abusiva. O problema agrava-se quando esta percepção de “segurança” é amplificada por dinâmicas próprias das redes sociais, onde os desafios se disseminam rapidamente, muitas vezes sem qualquer noção das consequências para os jovens envolvidos. Como sabemos, as redes sociais funcionam como um palco onde o olhar do outro é constante e potencialmente massivo. Intensificam a recompensa, através de likes e visualizações, mas também a pressão implícita à participação. O grupo deixa de ser apenas o grupo real e passa a ser um coletivo difuso, mas emocionalmente muito presente e isto conta. A adolescência é, por definição, um tempo de transformação e reorganização interna, onde fantasiar e experimentar são fundamentais. O risco e a transgressão fazem parte desta dinâmica de crescimento. É neste período que emerge uma necessidade imperiosa de testar limites, tantos os que nascem do mundo interno, como os que fazem parte do mundo externo, da lei, do exterior. O corpo transforma-se, a identidade procura-se e o grupo de pares ganha centralidade. O jovem percebe que está perante uma personalidade que é muito diferente da infância e emergem desafios importantes. Por um lado, a exigência do luto da infância e as suas necessárias desidentificações. Por outro, encontrar novas identificações e como é que a sua vida amorosa se vai desenrolar. Neste processo, emergem frequentemente fantasias de omnipotência — a crença, mais ou menos consciente, de que “comigo não acontece” — que coexistem com vivências de fragilidade, dúvida e, por vezes, desamparo. No fundo, a perspectiva do adolescente é a de pôr à prova, i.e., expor-se, verificar a solidez e a firmeza dos limites e a de experimentar, i.e., tomar as suas próprias decisões, fazer escolhas, sentir e reconhecer a sua própria realidade. De facto, quando o desejo de crescimento e conquista de autonomia é maior que o medo, muitos meios podem ser úteis e nestes “desafios” nas redes sociais cruzam-se várias dimensões psíquicas importantes para o jovem. A saber: a procura de reconhecimento e validação externa, o desejo de inscrição num grupo, a experimentação de limites, e, em alguns casos, formas de acting-out — i.e., a expressão através da acção de conteúdos emocionais que não encontram ainda representação simbólica suficiente. Isto implica adultos disponíveis para uma escuta não intrusiva, mas consistente. Capazes de sustentar a ansiedade sem recorrer imediatamente ao controlo ou à dramatização. Capazes, também, de reconhecer que o risco faz parte do processo adolescente — mas que precisa de ser simbolizado, nomeado e enquadrado. O desafio não deve ser apenas o “paracetamol”, mas a nossa capacidade de escutar o que está por trás dele. E escutar implica tempo, presença e transformação, sem medo de pensar e cuidar. Porque, como nos lembra Xavier Pommereau, quando o adolescente se sente mal, é preciso saber ouvi-lo, compreendê-lo e amá-lo."