06/03/2026
Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa, publicado na edição de 05 de Março 2026 do Jornal de Leiria, intitulado - "A transparência da dor emocional".
Texto integral aqui:
"“Passaram já tantos dias e todas as noites tenho pesadelos relacionados com aquela madrugada. Pesadelos onde aquele barulho ensurdecedor se faz presente. Acordo e não consigo dormir. Tive tanto medo de morrer, da casa implodir... E depois seguiram-se dias infinitos às escuras, sem conseguir comunicar com ninguém, sozinha, isolada... não passou ninguém durante mais de 10 dias. Há um estado de alerta permanente, não se esquece, uma dor imensa que não pára de nos acompanhar!”
Neste último mês, entre pacientes, familiares e amigos, o relato de Maria (nome fictício) tornou-se porta-voz do que foi ficar só e doer muito. Partilhas que trazem o medo, a tristeza, o desamparo, as perdas e lutos ainda difíceis de fazer, e a certeza inquietante de que, de um dia para o outro, tudo pode ruir. Há pessoas que continuam isoladas, sem luz e sem água. Casas destelhadas, húmidas, frias. Empresas no chão. Mas não só. Há vidas que ficaram interrompidas, suspensas, sem rumo. A imprevisibilidade da tempestade colocou a nu sentimentos intensos de fragilidade, insegurança e impotência — consequências psíquicas profundas que, quando o reconhecimento e amparo simbólico tarda, podem cristalizar-se em trauma colectivo. Comunidades inteiras partilham hoje um cenário devastador onde o lugar que sempre foi “casa” se transformou num espaço a descoberto. Quando o que delimita o “dentro” e o “fora” desaparece, das nossas casas, dos nossos jardins, das nossas ruas, das nossas florestas, instala-se a desorientação e um profundo abalo da identidade individual e colectiva. São tempos dolorosos de grande angústia que revelam a transparência de uma dor emocional difícil de nomear. A Psicologia e a Psicanálise ensinam-nos que o trauma não se define apenas pelo acontecimento em si, mas pelo que acontece dentro de nós como resultado do que nos aconteceu. Quando a tempestade imprevisível e incalculável irrompeu, o “real” invadiu o nosso psiquismo. A força da natureza ultrapassou as defesas habituais e reactivou memórias primitivas de vulnerabilidade absoluta. É uma experiência esmagadora, indizível. O corpo responde: imobiliza-se, o coração abranda, a respiração torna-se superficial, o contacto connosco próprios e com o mundo que nos rodeia fragiliza-se. É preciso uma energia tremenda para continuar a funcionar enquanto se carrega a memória do terror recentemente vivido. Os desdobramentos e encadeamentos entre o presente, passado e futuro ficam comprometidos. Não espanta, por isso, que, apesar da resiliência e da solidariedade demonstradas, surjam estados de hipervigilância, pesadelos, ansiedade, irritabilidade ou cansaço extremo. O trauma insiste e retorna. E, se não for acolhido e elaborado, pode transformar-se em sofrimento psíquico persistente. No terreno, surgiram rapidamente intervenções na linha dos Primeiros Socorros Psicológicos, com o objectivo de reduzir o sofrimento imediato e prevenir a evolução de perturbações mais graves. Foram intervenções de presença, escuta e validação, lembrando que o medo, a tristeza ou as dificuldades em dormir são respostas humanas e expectáveis após perdas tão significativas. A fase de emergência foi formalmente concluída. No entanto, o trabalho de acompanhamento e continuidade permanece — hoje, amanhã e depois de amanhã. É aqui que a relação terapêutica, ao funcionar como base segura e continente, pode criar as condições para restaurar a mentalização — voltar a pensar o que se sente e a sentir o que se pensa. O acontecimento traumático não se explica, constata-se. É um saber que não encontra palavras e que precisa de ser suportado: nós a suportar a pessoa e aquilo que ela ainda não consegue suportar sozinha. É nesse processo que a repetição do trauma pode transformar-se em experiência relacional com significado e possibilidade de resiliência. Será este também agora o nosso caminho — o meu e o da Maria — hoje, amanhã e depois de amanhã."