28/04/2026
“O esgotamento virou prova de valor?”
O excesso de cansaço físico e emocional aponta para algo que vai além do “estilo de vida” ou da sobrecarga objetiva.
O que aparece é uma identificação com o sintoma. O sofrimento deixa de ser apenas algo vivido e passa a organizar a identidade do sujeito. Não se trata só de estar cansada, mas de ser aquela que sustenta tudo, aquela que não falha, aquela que aguenta. Há, aí, um ganho narcísico silencioso: o de se reconhecer como indispensável.
Esse funcionamento costuma estar articulado a um superego severo, que não apenas proíbe, mas exige. Diferente da ideia clássica de um superego que limita, aqui ele opera como um imperativo: produzir mais, suportar mais, dar conta de tudo. É um superego afinado com a lógica contemporânea da performance, que transforma o excesso em valor moral.
Nesse contexto, o sofrimento pode ser capitalizado subjetivamente. Ele ganha estatuto de prova de amor, de responsabilidade, de valor. Por isso, muitas vezes, não é apenas difícil sair desse lugar, mas também pouco desejável inconscientemente. Abrir mão do excesso implicaria, em alguma medida, abrir mão de uma forma de reconhecimento.
Além disso, há um ponto importante na economia psíquica: ao permanecer ocupada, produtiva e sobrecarregada, o sujeito também se mantém afastado de certos encontros consigo mesma (com a falta, com o vazio, com perguntas mais fundamentais sobre desejo e escolha). O fazer excessivo pode funcionar como defesa.
A psicanálise, nesse sentido, não propõe simplesmente “descansar mais”, mas interrogar o lugar que o cansaço ocupa na estrutura subjetiva.
Não é apenas sobre o quanto se faz.
Mas sobre para quem, para quê e a partir de qual exigência interna se vive assim.