16/02/2026
Relembrando o Entrudo dos estudantes da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, no final do século XIX, no Hospital de São José.
𝗘𝗳𝗲𝗺é𝗿𝗶𝗱𝗲𝘀 𝗱𝗼 𝗣𝗮𝘁𝗿𝗶𝗺ó𝗻𝗶𝗼 𝗖𝘂𝗹𝘁𝘂𝗿𝗮𝗹 𝗱𝗮 𝗨𝗟𝗦 𝗦ã𝗼 𝗝𝗼𝘀é – 𝗟𝗫𝗜𝗩
No final do século XIX, entre as iniciativas organizadas pelos estudantes da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa uma das que mais se destacava era o Carnaval. Em 1895, o mau tempo ameaçou a realização do evento que acabou por sair à rua à hora marcada. Foi há 130 anos.
Apesar da chuva e do vento, os estudantes estavam bem dispostos com a ideia da sua festa, preparada há mais de um mês pelos alunos do terceiro ano, tendo acorrido à Escola muito antes da hora marcada. Na casa da Caixa de Socorros dos Estudantes Pobres, instalada na Travessa do Hospital, era grande a azáfama, dando-se os últimos retoques nos andores e no vestuário.
Pelos corredores e pátio da Escola, instalada num edifício nas traseiras do Hospital Real de São José, havia grupos de pessoas estranhas, talvez familiares e conhecidos dos alunos, estando nas janelas muitas senhoras e crianças, ansiosas com a indecisão inicial de fazer sair ou não o cortejo. A banda, composta exclusivamente por alunos da Escola, ensaiava o hino composto expressamente por Ilídio Amado, terceiranista do curso de medicina e que alguns meses mais tarde seria fundador da Tuna Académica.
Entretanto, o cortejo estava organizado na rampa que dá acesso à Porta do Carro, encabeçado pelo chefe do desfile acompanhado por um terço de cavalaria, todos de casaca e chapéu alto vermelhos, montados em cavalos de pau. Além dos organizadores, o cortejo incluía também os alunos do primeiro ano, de capas e barretes azuis, armados com fémures, seguidos de alunos vestidos de verde, representando as portarias, e outros, com grossas fardas com muitas bandas e condecorações, simbolizando os burocratas, conselheiros e ministros aposentados. Depois vinha uma das alunas, com uma criança nos braços representando a obstetrícia. A infantaria, constituída pelo grosso dos alunos, fechava o cortejo. Iam vestidos com camisas de senhora, armados de piaçabas e seringas.
Atrás do cortejo seguiam os cinco carros alegóricos com várias figuras e letreiros. A marcha iniciou-se pouco depois da uma hora da tarde, saindo de um casarão nos baixios da Escola, indo à Rua de São Lázaro, entrando depois pela Porta do Carro até regressar à porta principal do edifício onde estavam o director da Escola, acompanhado pelos lentes e muitos outros médicos e estudantes.
Os carros alegóricos tinham vários temas, como o «Carro da Impotência Constitucional», o «Carro da Cólera», o «Carro do Júri Perpétuo», o «Carro do Capitão Dias» e o «Carro do Protoplasma», todos inspirados em assuntos ocorridos ao longo do ano académico, que foram igualmente abordados pelo orador que discursou no final do cortejo. Este, um aluno do segundo ano, levava uma seringa ferrugenta, «a seringa da má-língua», uma cabaça e um gorro com um grande olho, «o olho clínico».
📷 O Cortejo de Carnaval da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1895 – Episódios da Vida Médica.
Arquivo Histórico do Hospital de São José – Unidade Local de Saúde de São José