22/07/2022
Para que os pais possam refletir...
A Mada teve um ano muito difícil. Mesmo muito difícil. Subitamente, foi como se a sua alma a tivesse abandonado, como se toda a sua luz tivesse sido engolida por uma caixa sorvedora de luz. Subitamente, calou-se. Fechou-se no quarto. Deixou de comer. Tinha dores de cabeça diárias. Faltou muito à escola.
Falámos com o pediatra, que quis vê-la no mesmo dia em que lhe ligámos. Fez análises. Anemia e falta de vitamina D. Podia ser por aí. Fomos a uma neurologista, que diagnosticou enxaqueca. Podia ser.
Perguntámos se gostaria de falar com alguém. Respondeu que sim.
Foram meses duros para nós, pais, com muitas noites sem dormir, muita vigilância e angústia.
Quase meio ano depois da primeira consulta, uma explosão. “Odeio o ensino articulado, odeio o piano, não aguento mais!” Em choque, perguntámos porque nunca nos tinha dito. “Tinha medo de vos desiludir”.
Depois disso, e depois de conversarmos mais calmamente sobre o assunto, concordámos com a desistência do articulado. Para o ano, seguirá o ensino normal, com as disciplinas do 8.o ano, sem a componente artística. E a partir daí, a partir desse momento de catarse-resolução, a nossa miúda começou a voltar. Voltou o sorriso, a graça, a garra. Foi como se alma tivesse voltado a casa, como se a luz tivesse conseguido escapar da caixa sorvedora de luz. Na conversa com a psicóloga, ficámos com a perfeita noção de que a apanhámos a tempo. Que lhe demos as ferramentas para que descobrisse o que a amargurava e que, depois disso, a deixámos decidir em consciência. Ninguém aqui quer que ela viva uma vida traçada por outros, sendo que neste caso os outros éramos nós. Ninguém tem a pretensão de ter um Chopin de trazer por casa, para exibir aos outros aquilo que não corresponde a uma paixão, a uma verdade. Queremos que ela siga, que sigam os quatro, um caminho que os faça felizes. Se uma escolha se torna uma opressão, é fugir dela a sete pés.
Bem-vinda de volta, Mada. Tivemos tantas saudades tuas. ❤️
(este texto foi publicado com a autorização da Mada, para que outros pais possam estar atentos a sinais, para que outros miúdos possam dizer que precisam de ajuda, e que possam mudar de rumo sem medo de desiludir ninguém)