11/08/2021
IN MEMORIAM
Dimas de Almeida (1937-2021)
Uma das figuras culturalmente mais marcantes do protestantismo português, nasceu no Montijo, filho de António d’Almeida e de Madalena Dimas d’Almeida.
Cedo manifestou a sua propensão para o estudo e a sua sensibilidade religiosa na comunidade presbiteriana do Montijo. Ingressou no Seminário Presbiteriano de Teologia (mais tarde Seminário Evangélico de Teologia), em Carcavelos, tendo servido primeiro como evangelista e depois como seminarista em Moura, Pias e Aldeia Nova (Outubro de 1958 a Julho de 1959 e de Setembro de 1960 até 1961), onde encontra sua esposa Suzete Simão Arrais (Dimas Almeida) com quem casa em 1 de setembro de 1960. Vão ter dois filhos: a Célia (n. 1961) e o Paulo (n. 1970). De volta a Lisboa para completar os seus estudos no Seminário colabora na Igreja Evangélica Lisbonense à Rua Febo Moniz, com o Rev. Carlos A. Vasconcelos. Termina em 1965 a sua tese de licenciatura em Teologia, sobre Efésios 4, e é ordenado pastor da igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal. Em 1965/1966, já ordenado, f**a a pastorear a Igreja Presbiteriana de Lisboa, à Rua Tomás da Anunciação, pois o pastor desta paróquia, Rev. Augusto Esperança (1928-2018), estava em Boston, EUA, a fazer o seu mestrado. Nessa igreja, em 1965, Dimas Almeida é contactado por uma leiga católica, Teresa Martins Carvalho, que lhe lança o desafio ecuménico a que responderá o resto da sua vida. Juntamente com Teresa Carvalho, com o padre católico Gregório Neves, professor no Seminário dos Olivais, e com o bispo da Igreja Lusitana D. Luiz César Pereira (1908-1984) formam a primeira comissão para o diálogo Ecuménico em Portugal. Nesses meios fervilhava o debate político e a oposição ao Estado Novo; esse ambiente e as leituras de Karl Barth, cimentaram em Dimas uma profunda consciência da vocação política do cristão. Quando é colocado como pastor nos Açores, em 1966, vai levar estas duas heranças: a ecuménica que desenvolve juntamente com o padre Edmundo M. Pacheco (1925-2015), na Ribeira Grande, onde mantêm uma coluna num jornal micaelense, e a da consciência do papel dos cristãos na política, que partilha com várias figuras de S. Miguel, como Ernesto Melo Antunes (v. A Oposição ao Salazarismo em S. Miguel e outras Ilhas Açorianas, de Mário Mesquita). De regresso a Lisboa, em 1969, vem pastorear a Igreja Presbiteriana de Lisboa – entretanto, Esperança saíra para dirigir a Sociedade Bíblica –, e volta a integrar-se nos ambientes ecuménicos e da oposição cristã a Marcelo Caetano. É um dos pioneiros na troca de púlpitos com padres católicos, tendo chegado a concelebrar com o padre Alberto Neto (1931-1987), para admiração e escândalo de muitos protestantes e católicos e para testemunho de que a «passagem do anátema ao diálogo era possível», segundo o próprio Dimas Almeida.
Ao mesmo tempo, passa a lecionar e depois a dirigir o Seminário Evangélico de Teologia, onde é docente de Grego, Teologia do Novo Testamento, Exegese e muitas outras disciplinas. A atividade pastoral e docente de Dimas não passa desapercebida à PIDE-DGS, que em 27 de março de 1970 envia quatro agentes a sua casa, lhe revista a biblioteca e lhe apreende os livros Evangélisation et Politique, de Phillippe Maury, Information du Monde et Predication de l’Evangile, de Jean-Marc Chappuis, Educação Sexual para Crianças, e um cartoon do seu colega Manuel P. Cardoso. Dois dias depois das buscas da PIDE nasceria o Paulo, segundo filho de Suzete e Dimas. Em 1973, juntamente com o então presidente da Igreja Presbiteriana de Portugal, Rev. Rui A. Rodrigues, toma posição pública sobre a prisão e morte pela PIDE do presidente da Igreja Presbiteriana de Moçambique, Rev. Zedequias Manganhela (1912-1972), na prisão de Machava, o que lhe traz novos dissabores. Em 1973, Dimas deixa de pastorear a Igreja Presbiteriana de Lisboa e vai para a paróquia de Algés, que sendo mais pequena lhe deixava mais tempo livre para a sua paixão maior, o ensino teológico. Foi Reitor do Seminário Evangélico de Teologia, primeiro na Avenida do Brasil e depois na Rua Tomás da Anunciação, escola viva por onde passaram muitos pastores presbiterianos, metodistas, lusitanos (anglicanos), católicos, batistas, portugueses bem assim como inúmeros oriundos de Angola e Moçambique. Depois de uma curta passagem pelo pastorado da paróquia da Ajuda (Lisboa), Dimas Almeida deixa a atividade pastoral, mas não abandona o ensino.
Sempre sensível ao evoluir dos tempos vai, a partir de 1995/1996, trabalhar num novo projeto em colaboração com o frade dominicano Frei Bento Domingues. Trata-se do curso em Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, que arranca em 1998, e onde lecionou a alunos de licenciatura e mestrado as cadeiras de Grego, Introdução ao Pensamento Contemporâneo, Psicologia das Religiões, Ética e muitas outras matérias. Em 2003 vê reconhecidos os estudos que completara em França, na Faculdade de Teologia de Montpellier, por meio da Universidade Nova de Lisboa, que nomeou como júri os padres Carreira das Neves e Borges de Pinho.
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Dimas também nunca abandona a atividade ecuménica, pois mantém até ao fim da sua vida, primeiro em sua casa, em Carcavelos, e depois de 2020, devido à pandemia, através dos meios de comunicação informáticos, um grupo de estudos bíblicos por onde passaram muitos católicos e protestantes, leigos e pastores interessados, conhecido como o Grupo Ecuménico de Carcavelos.
Traduziu diversas obras de que se destacam: 95 Teses de Lutero (2008), Breve Instrução Cristã, de Calvino (2009), Ética a Nicómaco, de Aristóteles (2012), Pequena Filocália (2017). Foi autor de diversos escritos, artigos, entrevistas, recensões, publicados em livros, revistas e em acesso online, de que se podem destacar: Guerra e Paz – Uma Perspetiva Bíblica (2002), a larga «Introdução» à Revista Lusófona de Ciência das Religiões com o tema As contingências e Incidências do Pensamento de João Calvino, e o Ensaio sobre a Tradução dos Evangelhos e Salmos da CEP (2020). Ministrou via online um curso sobre o Evangelho de S. Marcos, que também traduziu do grego.
Intelectual de primeira água e comunicador de alto nível, Dimas Almeida marcou profundamente milhares de cristãos pelo seu ensino e o seu testemunho. Faleceu hoje, 11 de Agosto de 2021. A admiração que merece de muitos é grande, a saudade que deixa é enorme.
David Valente
11 de Agosto de 2021
https://sphp.pt/antonio-jose-dimas-almeida/
ULHT - Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal - IEPP Igreja Presbiteriana de Lisboa (Tomás) Aliança Evangélica Portuguesa Copic-Conselho de Igrejas Cristãs
Cerimónia Fúnebre Pastor António José Dimas de Almeida
Hora: 13 ago. 2021 01:50 da tarde Londres
Entrar na reunião Zoom
https://us02web.zoom.us/j/87575011321?pwd=S1ZUZE9TTlhmZkw1NG9NMXB4bWYrdz09
ID da reunião: 875 7501 1321
Senha de acesso: iepl