19/02/2026
𝐀 𝐜𝐚𝐭𝐚́𝐬𝐭𝐫𝐨𝐟𝐞 𝐝𝐚 𝐡𝐞𝐫𝐨𝐢́𝐧𝐚: 𝐝𝐨 𝐧𝐚̃𝐨 𝐬𝐚𝐛𝐞𝐫 𝐚𝐨 𝐜𝐨𝐦𝐩𝐫𝐞𝐞𝐧𝐝𝐞𝐫
Nos anos 80 e 90, Portugal viveu uma catástrofe silenciosa que devastou bairros, famílias e gerações: a epidemia da he***na. Eu cresci no meio desse cenário, sem o compreender. No meu bairro, dois jovens da minha idade, 15/16 anos, morreram de overdose. Outros por ali andavam, presos a um consumo que destruía as suas vidas e as das suas famílias. Eu via a tragédia, mas não sabia lê-la.
Na altura, como muitos, pensava em “más escolhas”, “más companhias”, fraqueza de carácter. Não tinha ainda a linguagem nem o conhecimento para perceber o que hoje sei como psicólogo. Via o comportamento, não via a dor. Via o consumo, não via o trauma.
Em 1992 entrei para a PSP e o cenário deixou de ser apenas memória de bairro para se tornar presença diária. Em Almada, dezenas de jovens enchiam as ruas, quase como zombies, com a vida organizada à volta da próxima dose que prometia algum alívio. Encontrei alguns mortos por overdose em becos e vielas. Fui chamado a casas onde mães e pais eram agredidos por filhos em desespero. A he***na rebentou com milhares de vidas, de famílias, de relações.
Só mais tarde, já como psicólogo, a minha visão sobre tudo isto mudou profundamente. A formação em trauma e a prática clínica trouxeram uma compreensão que antes não existia: grande parte daquela dependência estava enraizada em trauma precoce, em histórias de violência, negligência, abandono, humilhação, vergonha. A he***na chegou a uma sociedade emocionalmente analfabeta, onde a saúde mental era invisível, e espalhou-se como fogo em pasto seco.
O que antes eu via sobretudo como “vício” ou “autodestruição” apareceu-me, então, como uma tentativa desesperada de regulação: pessoas a tentar anestesiar memórias insuportáveis, corpos sempre em alarme, emoções sem nome nem lugar. Onde antes via essencialmente crime, falta de controlo ou irresponsabilidade, hoje vejo sobrevivência, estratégias falhadas de aliviar sofrimento.
É também importante reconhecer que a intervenção de Portugal nas toxicodependências foi um sucesso. As políticas públicas, a viragem para uma abordagem de saúde em vez de exclusivamente punição, e o investimento em tratamento e redução de riscos transformaram o país. Hoje, em grande parte, as ruas já não mostram aquele cenário de jovens caídos, mortos-vivos à vista de todos.
Mas isso não significa que o problema tenha desaparecido. As dependências mantêm-se, mais ocultas, menos dramáticas aos olhos da sociedade, mas bem presentes. Mudaram de substância, de forma, de contexto. Por detrás, muitas vezes, continua o mesmo motor: trauma não tratado, dor que nunca encontrou espaço para ser cuidada.
A catástrofe da he***na marcou uma época e um país. O que aprendi, como pessoa, como polícia e como psicólogo, é que não podemos falar de dependências sem falar de trauma. E que quem consome não é “o problema”, mas alguém que carrega um problema maior do que a substância: uma história de dor que precisa de ser vista, escutada e tratada.
Quem se lembra disto?