19/05/2024
Quando escolhi a especialidade de Clínica Geral, como se chamava na altura à atual Medicina Geral e Familiar, tive muitos colegas, amigos e até familiares que me perguntaram porquê. Alguns até me perguntaram se depois iria tirar alguma especialidade.
Entretanto passaram mais de 25 anos e continuo por cá: especialista em Medicina Geral e Familiar.
Neste dia mundial dedicado ao médico de família e à especialidade de Medicina Geral e Familiar, peço que me acompanhem neste exercício de reflexão sobre o Porquê ser Médico de Família.
A Medicina nasceu da necessidade de aliviar o sofrimento dos sintomas que afligiam os doentes. Com o tempo, o médico da tribo percebeu que alguns sintomas se repetiam de forma mais ou menos consistente na sua apresentação e chamou-lhe diagnóstico. Percebeu também que poderia intervir nestes sintomas com preparados específicos e com isso melhorar os sintomas e alterar a evolução natural das doenças, ao que chamou tratamento, e, se o fizesse numa fase precoce, até conseguia prevenir as doenças. Percebeu também que nem sempre conseguia curar as doenças, mas que podia sempre aliviar o sofrimento e consolar as pessoas que o procuravam.
A evolução do conhecimento ditou que este médico pluripotente se fosse diferenciando em várias disciplinas para melhor tratar as doenças. Mas a pessoa não é apenas a doença que a aflige num determinado momento, e os doentes ditaram a necessidade de redefinir o posicionamento da medicina e ter um médico que além de tratar as doenças conseguisse olhar a pessoa na sua individualidade e na sua globalidade.
Apareceu assim a especialidade de Medicina Geral e Familiar, orientada para as pessoas e para as suas necessidades, numa visão integral que conjuga os dados atuais de cada um com o seu passado biopsicossocial, com a sua estrutura familiar e com a comunidade envolvente, nas suas características demográficas e socioculturais, oferecendo uma visão holística só possível neste contexto. É uma relação integral e personalizada, baseada na melhor ciência existente, e atenta à complexidade de cada um no diagnóstico, nos tratamentos, na prevenção, na reabilitação da doença crónica e na paliação, quando necessário.
Prestamos cuidados personalizados, globais e em continuidade a todos os que nos procuram, independentemente da idade, género, etnia ou estado de saúde, numa interação única da relação médico-doente que é também uma ferramenta terapêutica no seu contexto e no seu resultado. Trabalhamos em equipa com outros profissionais, médicos e não médicos, e até com o desenvolvimento tecnológico e digital, nos diferentes níveis de assistência, compreendendo que isoladamente não conseguimos prestar os melhores cuidados e que a diferenciação e especialização são fundamentais para tratar bem as pessoas que em nós confiam a sua saúde e as suas doenças.
Somos o primeiro ponto de contacto do cidadão com o sistema de saúde, acompanhando-o no processo e provendo pela sua saúde, numa proximidade que nos coloca muito perto da intimidade de cada um, a ponto de nos chamarem carinhosamente médicos de família, com tudo o que representa de confiança e de carinho e nos reconhecerem a deferência de um dia mundial. Somos a cara do sistema de saúde com impacto nos resultados de saúde de cada um, ainda que muito expostos nas inconformidades e defeitos de um sistema que teima em desvalorizar este ativo e que facilmente nele descarrega as suas ineficiências.
Sou médico de família e este é o meu dia, mas é também o dia de todos os que acompanho nos seus percursos de saúde e doença. Mais do que uma comemoração ou uma enumeração das dificuldades, tem de ser uma chamada de ação para o que queremos na saúde enquanto cidadãos na nossa sociedade. E aí estamos todos convocados.
19 de maio de 2024, Dia Mundial do Médico de Família
Healthy Planet, Healthy People.