17/01/2026
Janeiro é o mês onde as nossas ilusões florescem com mais arrogância. O calendário vira e nós achamos que o universo virou connosco. Como se a simples troca de número tivesse o poder místico de endireitar tudo o que nos dói. Dezembro cansa-nos; Janeiro promete. E então voltamos a cair na mesma armadilha: a felicidade como consequência, nunca como prática. A alegria como destino, nunca como caminho. A vida como um “ainda não”, mesmo quando tudo em nós implora por um “já”.
Há uma crença silenciosa, quase universal entre as mulheres, que raramente admitimos em voz alta: a ideia de que a nossa felicidade vive sempre num ponto imaginário do futuro. “Vou ser feliz quando…” — e depois preenchemos o vazio com o capricho emocional do dia. Quando perder peso, quando mudar de emprego, quando finalmente descansar, quando encontrar alguém, quando deixar alguém, quando tudo fizer sentido, quando ele mudar a sua natureza, quando eu mudar a minha história. É um mantra sofisticado de auto-adiamento, uma espécie de contrato espiritual que nunca assinámos mas seguimos com a devoção de quem tem medo de falhar o próprio destino.
O mais perverso — e também o mais humano — é que a felicidade-condicional é, psicologicamente, uma forma elegante de auto-abandono. Quando digo “só serei feliz quando…”, estou a admitir que não me autorizo a sê-lo agora; que ainda não me tornei suficientemente merecedora, competente, magra, resolvida, sábia, organizada, curada, alinhada, santa. A mulher f**a sempre aquém de si. Sempre em esforço. Sempre em dívida. E em dúvida, claro está.
A felicidade não é uma recompensa. Não é um troféu entregue no fim da maratona emocional. A felicidade é o que conseguimos viver no intervalo entre um caos e outro. É a coragem de existir mesmo quando tudo não está perfeito. É o direito de sentir prazer sem pedir desculpa. É a humildade de ser humana e não uma máquina de resultados.
A vida não começa depois. Não começa quando. Começa agora — sempre agora — no momento em que paramos de negociar connosco e começamos, finalmente, a regressar a nós.
E se há revolução maior do que uma mulher que volta (e se volta, oh revolta!) a si mesma, eu ainda não a encontrei.
— A minha crónica deste mês – "A Armadilha do “Vou Ser Feliz Quando…"" – está publicada na edição de Janeiro da Revista LuxWoman , nas bancas
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