30/04/2026
O cérebro humano ama previsibilidade. Mesmo quando essa previsibilidade é infeliz. O conhecido, ainda que doloroso, oferece sensação de controlo. O novo, ainda que libertador, activa incerteza. É por isso que tantas mulheres permanecem fiéis a versões que já não lhes servem. Não por falta de inteligência ou coragem, mas porque abandonar um padrão implica atravessar um vazio. E o vazio assusta.
Há algo profundamente perturbador em admitir: “Eu já não quero ser essa mulher.” Porque essa mulher construiu relacionamentos, reputação, identidade social. Foi elogiada por ser forte, resiliente, disponível, compreensiva, multitarefa, agregadora, “boazinha”…
E aqui reside uma das armadilhas mais sofisticadas da liberdade feminina: o elogio pode ser uma coleira dourada.
Quando a força se torna obrigação, a resiliência passa a ser silêncio. Quando a empatia vira auto-abandono, a maturidade é apenas supressão emocional. Muitas mulheres são recompensadas por tolerar mais do que deveriam. E isso cria uma identidade baseada na capacidade de aguentar.
Mas aguentar não é o mesmo que estar livre.
A verdadeira liberdade talvez comece quando deixamos de nos orgulhar daquilo que nos adoece. Quando paramos de romantizar a mulher que “dá conta de tudo”. Quando reconhecemos que dizer “eu sou assim” pode ser apenas uma forma elegante de evitar o risco de mudar.
Mudar não é ‘instagramável’. Não tem filtros bonitos. Tem noites de dúvida, silêncios constrangedores e aquela sensação estranha de não saber exactamente quem se está a tornar. Já acompanhei mulheres que perderam relações ao mudarem. E, ainda assim, meses depois diziam: “Doeu. Mas eu voltei a respirar.”
Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer não seja “Eu sou assim?”, mas “Eu continuo a querer ser assim?”
Se a resposta for não, há trabalho a fazer. E isso é uma boa notícia. Porque signif**a que estamos vivas. Em movimento. Em processo.
Algumas versões de nós precisam morrer. Não por fracasso. Mas por evolução. E talvez a forma mais radical de liberdade feminina não seja provar que somos fortes — mas permitir-nos transformar.
– A minha crónica de Abril para a está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/a-liberdade-de-deixar-de-ser-quem-fomos