02/01/2026
LOURINHÃ - SÃO BARTOLOMEU
Esta antiga vila teve a sua origem no tempo dos romanos ou dos antigos lusos, e foi conquistada aos árabes no reinado de D. Afonso Henriques, por D. Jordão, fidalgo
francês, que estava ao seu serviço e de quem recebia foral.
Há uma lenda antiga que diz que os antigos lusos habitantes desta vila, resistiram tenazmente à invasão romana nas suas terras, e que quando se viram muito atacados se retiraram para a costa do mar, onde viveram muito tempo escondidos nos montes e nas cavernas, que ficam entre os rochedos, até que foram descobertos por traição a César que os obrigou a renderem-se.
É notável que os descendentes destes valentes ajudaram a resistir à invasão francesa quando o exército britânico desembarcou na foz do Mondego em 6 de agosto de 1808 e, marchando nas proximidades da costa, derrotou em 17 do mesmo mês o exército francês debaixo do Comando de Laborde em 21 na batalha do Vimeiro, que foi perto da Lourinhã, onde o exército anglo-luso, comandado por Wellesley, depois Wellington derrotou as forças de Junot.
Foi então, que o governo inglês pondo de parte os grandes merecimentos de Wellesley, enviou como supremo general Dalrimple, que por motivos políticos e fraquesa consentiu que Junot derrotado e sem prestígio, se retirasse de Portugal com todo o seu exército, armas e bagagens.
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O corajoso prior de S. Bartolomeu na Lourinhã, padre José do Nascimento Neves, seguindo o exemplo dos antigos e resolutos habitantes daquela vila teve a coragem de resistir à Curia romana, organizando uma Associação cultural e publicando no Século o plano de organização de uma Igreja Nacional completamente separada de Roma e baseada nos Santos Evangelhos de Cristo.
O bom prior tem por isso acarretado sobre si a ira e a perseguição dos bispos e alguns padres, mas tem resistido com paciência e confiança em Deus.
Por uma coincidência deveras simpática e interessante, o décano dos ministros da lgreja Lusitana o muito digno e respeitável benemérito da instrução em Gaia, reverendo Diogo Cassels, foi o primeiro ministro que visitou São Bartolomeu em 16 de Maio próximo passado dia da Ascensão e anuindo ao convite do seu muito amável e liberal prior o reverendo Nascimento Neves, subiu ao púlpito e proferiu um discurso evangélico.
Damos graças a Deus e realmente ficamos agradavelmente surpreendidos e alegres ao receber esta notícia, pois que era deveras justo que um que em 1868 foi perseguido, julgado e condenado, unicamente pela questão religiosa e por anunciar o Evangelho, fosse o primeiro dos ministros da Igreja Lusitana a visitar o reverendo Nascimento Neves e a subir ao púlpito de São Bartolomeu para anunciar o Evangelho de Jesus.
S. Paulo estabeleceu a teoria que todo o mundo é o púlpito dos que anunciam o Evangelho, e na cidade descrente de Atenas, corajoso subiu ao púlpito do Areopago para anunciar as Boas Novas, aos filósofos epicúrios e estoico.
Depois um dever sagrado e privilégio dos ministros evangélicos, subir aos púlpitos dos padres que corajosamente se desligam de Roma, e é mester lançar ao vento todo o acanhamento e duvidas sobre este ponto.
Dizemos em voz alta, e sem ambiguidade, que para a Reforma em Portugal tomar proporções e se alastrar, nao só nas cidades como nas vilas, e freguesias é absolutamente necessário que os ministros do Evangelho, sempre que possivel seja, aceitem qualquer convite de priores e abades para subir aos seus púlpitos e explicar o EvangeIho, em alta voz, para que o povo possa compreender.
É certo que antigamente os ministros evangélicos eram proibidos pelos bispos e pela Curia romana de pregar nos seus púlpitos, mas hoje, em virtude da Lei da Separação não há nada que tal possa proibir, quando sejam convidados pelos priores e abades.
Com grande satisfação e contentamento, enviamos os nossos muito sinceros parabéns e congratulações tanto ao reverendo Nascimento Neves, como ao reverendo Diogo Cassels, porque foram instrumentos nas mãos de Deus para inaugurar um principio e um record, no nosso país que será de grande alcance e reforma religiosa na nossa patria.
Os dois corajosos e simpáticos ministros inspirados pelo santo desejo de emancipar o povo das superstições e algemas de Roma e de estabelecer uma Igreja puramente nacional, resolveram de pronto, num rasgo de entusiasmo, um problema dificil e deram um exemplo de como se há de alastrar e alongar a obra da Reforma pelas freguesias de Portugal,
Portas abertas, eis por toda e do mundo!
Cristães erguei-vos! Já avante andai!
Crentes em Cristo! Uni as vossas forças
Da escravidão os povos libertai
ANDRÉ BOYS CASSELS.
Fonte: https://arquivo.cm-gaia.pt/Result.aspx?id=285991&type=PCD&fbclid=IwY2xjawPE88VleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZAwzNTA2ODU1MzE3MjgAAR6i048yy3CT-eK14SxNMUybqgVTjPui_6E-bRjXnpS0Lod2cfihLBPLWfCvMQ_aem_DSMBu-fgtcvaNuwVgm-u2A