18/12/2025
As mentes mais perigosas são as das mulheres empáticas que finalmente se escolhem a si mesmas, porque a sua clareza é inegociável. Durante anos, foram ensinadas, directa e indirectamente, que o seu valor residia em quanto podiam reter, quanto podiam perdoar, quanto podiam compreender e o quão pouco precisavam em troca. Quando se escolhem a si mesmas, não se tornam cruéis. Tornam-se assertivas. Deixam de oferecer as suas vidas como uma conta aberta para as retiradas de qualquer outra pessoa, e essa mudança assusta aqueles que se sentiam confortáveis com a sua constante doação.
Uma mulher empata é muitas vezes criada para acreditar que o amor signif**a resistência. Ela aprendeu a ler um espaço mais facilmente do que lê o seu próprio corpo. Torna-se especialista em acalmar tensão, evitar conflitos e absorver o que os outros recusam enfrentar em si mesmos. Torna-se quem resolve silenciosamente, o ouvinte calmo, quem "não arma confusão". Com o passar do tempo, ela é reconhecida por ser um ombro amigo e é punida quando pede um em troca. É assim que ela foi treinada para abraçar tempestades que nunca foram suas, enquanto lhe foi dito que esta era simplesmente a sua natureza.
A sua sensibilidade não é uma fraqueza, é percepção. Ela sente o que é evitado, o que é negado, o que é disfarçado de humor, o que é disfarçado de charme.
Ela consegue sentir uma pessoa ferida por detrás de um tom de voz agressivo, consegue sentir o medo por detrás do controlo.
Mas quando a sua empatia é explorada, a sua percepção é usada contra si mesma. É convidada a entender pessoas que não assumem responsabilidades. É empurrada a desculpar comportamentos que deveriam ser confrontados. É honrada por ser a "pessoa melhor" até que a sua vida se torna um aglomerado de espaços cada vez mais pequenos que lhe dizem para aceitar.
O que a muda não é o súbito desejo de castigar os outros. É o momento em que se apercebe do custo de estar sempre disponível. É o dia em que entende que a exaustão não é um prémio do amor, e que constante trabalho emocional não é o mesmo que devoção. É o momento em que o seu corpo começa a protestar: dores de cabeça, tensão, insónias, atordoamento, um aperto no peito quando diz sim mas quer dizer não. Começa a ver que anseia por cuidado, mas com medo da rejeição, medo do conflito, medo de ser vista como sendo difícil.
Quando ela se volta para dentro, alguma coisa negligenciada por muito tempo começa-se a manifestar claramente. Ela começa a perguntar questões a si mesma que antes evitava, porque as necessidades dos outros eram mais audíveis: O que eu sinto quando ninguém está a ver? O que eu tolero está a ensinar as pessoas como me devem tratar? Porque peço desculpas ao colocar limites? Porque continuo a oferecer carinho a quem o recebe como algo a que tem direito obrigatoriamente? Estas questões não são confortáveis, porque não lhe permitem esconder-se por detrás de ser-se útil. Elas trazem-na para encarar os lugares em que ela se abandonou para manter as outras pessoas por perto.
É aqui que os seus limites se tornam portais sagrados e não muros. Um portal não existe para deixar a vida do lado de fora, existe para decidir o que é permitido entrar. Aprende a aceder ao seu próprio tempo, à sua atenção, à sua energia emocional e a sua confiança não é algo que alguém mereça automaticamente. Começa a perceber que o seu "não" não precisa de uma defesa como se fosse em tribunal. Não precisa dar uma explicação longa para que a sua recusa seja aceitável. O seu "não" torna-se uma frase completa e o seu "sim" algo que ela dá apenas se não tiver o custo da sua dignidade. As pessoas que dependiam da sua falta de limites muitas vezes respondem com pressão disfarçada de desilusão. Chamam-lhe fria quando ela apenas é consistente. Acusam-na de ter mudado como se crescimento fosse deslealdade. Activam gatilhos: culpa, emergência, piedade, obrigação, nostalgia. Mas o perigo agora é que ela consegue ver o padrão enquanto está a acontecer.
Ela reconhece quando uma crise está a ser usada como um patamar. Quando afecto é oferecido como pagamento pelo seu silêncio. Quando alguém a louva pela sua bondade apenas para a manter cúmplice. E ela já não confunde ser necessária com ser valorizada.
Escolher-se a si mesma não apaga a sua empatia, purif**a-a. Ela pára de salvar pessoas de consequências que as podem amadurecer . Pára de carregar emoções que nunca lhe foram entregues com respeito. Pára de traduzir desrespeito numa história triste que ela precisa resolver. O seu cuidado torna-se direccionado e não automático. A sua compaixão torna-se sábia e não auto-destrutiva. Aprende que amor sem limites não é amor, é uma anulação lenta, e ela já não está disponível para se anular para provar que tem bom coração.
É assim que ela se torna inabalável sem se tornar endurecida. Ainda é terna, conectada, capaz de perceber o sofrimento calado dos outros, mas finalmente oferece essa mesma atenção a si própria. Descansa sem se desculpar. Fala naturalmente sem almofadar cada frase para proteger os egos dos outros. Afasta-se de dinâmicas que exigem a sua auto-anulação. A sua presença torna-se clara e estável porque já não é cedida a quem chega com a maior necessidade e menor responsabilidade.
É por isto que a mulher empata que se escolhe a si mesma muda um espaço sem elevar a voz. Ela não ameaça, ela simplesmente pára de aceitar ser drenada. Não procura vingança, simplesmente pára de dar acesso onde não existe cuidado. Não perde o seu dom, ela devolve-o ao seu proprietário e usa-o com discernimento, com auto-respeito e com autoridade serena.
E quando permanece nessa honra a si própria, ela já não está apenas a sobreviver à sua sensibilidade. Está a viver dentro dela, plenamente e ninguém pode removê-la de si própria novamente.
-Steve De'lano Garcia
Tradução: Margarida Estevam Costa