08/03/2026
Dizer que “a luta não é de agora” é reconhecer que o sistema nervoso das mulheres tem sido moldado, ao longo de gerações, para operar num estado de alerta constante.
Fomos ensinadas a habitar um estado de hipervigilância afetiva, uma monitorização constante do mundo ao nosso redor, onde o radar do nosso sistema nervoso está sempre ligado para as necessidades alheias, muitas vezes em detrimento das nossas.
Em psicologia, falamos de exaustão emocional, mas na vida, o que sentimos é o peso de uma armadura que se tornou pele. O nosso valor é medido pela nossa utilidade, e o resultado é um sistema nervoso que se esqueceu de como se desliga.
Estarmos exaustas não é, portanto, uma falha de caráter ou uma falta de força, é a resposta honesta de um corpo que tentou ser um continente inteiro quando deveria ser apenas uma pessoa.
Porque um sistema que nunca descansa, que nunca se permite estar presente sem estar em guarda, acaba por se desconectar da sua própria pele, tornando-se estrangeiro de si mesmo.
A quietude, afinal, não é uma questão de saber levar a carga, mas sim de a soltar. É o desmonte minucioso dessa necessidade de não falhar, esse ofício de ser sempre o amparo e nunca o amparado.
Quando cessam os deveres de estarmos sempre prontas para o mundo, o que f**a somos nós. Inteiras na nossa imperfeição.
— E, por fim, em paz.