09/02/2026
Escrevo este texto não apenas como mãe, mas também como psicóloga. Escrevo inspirada por uma atleta de patinagem — a minha filha — que, desta vez, voltou para casa sem o diploma do nível que tanto desejava.
Não passou.
E, ainda assim, venceu.
Venceu porque soube lidar com a sua primeira grande frustração desportiva. Venceu porque aceitou o resultado sem desistir. Venceu porque transformou a tristeza em foco, em vontade de melhorar, em motivação para a próxima prova.
É importante falar sobre isto no desporto, principalmente no desporto individual: o impacto emocional de não conseguir, de falhar, de sentir que o esforço não foi reconhecido naquele momento. Para uma criança ou jovem atleta, reprovar num nível pode ser vivido como uma ferida Pode tocar na autoestima, na confiança, na identidade. Pode gerar dúvidas, medo, raiva, vergonha e, muitas vezes, silêncio.
E está tudo bem.
Está tudo bem não estar tudo bem.
Está tudo bem chorar.
Está tudo bem sentir zanga, frustração, tristeza.
Está tudo bem sentir que dói.
Dói porque houve dedicação.
Porque houve treino.
Porque houve sonhos.
O problema não é sentir. O problema é não aprender a lidar com o que se sente.
No desporto, falhar não é o fim. É parte do caminho.
Por isso, o acompanhamento psicológico é tão importante: ajuda os atletas a desenvolverem recursos emocionais, resiliência, autoconfiança e equilíbrio para lidar com a pressão e com o insucesso.
Vivemos numa cultura que ainda tem muita dificuldade em falar sobre fracasso. Ensina-se a ganhar, mas pouco se ensina a perder. Ensina-se a subir, mas não se ensina a cair — e, sobretudo, a levantar.
E agora falo também para os pais.
Muitas vezes, o sofrimento dos filhos ativa as nossas próprias feridas. A nossa própria dificuldade em falhar. A nossa própria necessidade de ver “resultados”. Às vezes, sem perceber, transmitimos frustração, silêncio, cobrança ou desilusão — quando o que eles mais precisam é de colo emocional.
O mundo não acaba por reprovar numa prova.
Mas pode magoar se ninguém ajudar a reconstruir.
A minha filha não trouxe um diploma para casa.
Trouxe maturidade.
Trouxe força emocional.
Trouxe consciência.
Trouxe vontade de continuar.
E isso, para mim, é uma vitória enorme.
Que possamos criar atletas fortes não só no corpo, mas também na mente e no coração.
Que possamos ensinar que falhar faz parte.
Que desistir não.
E que, acima de tudo, possamos lembrar:
o verdadeiro sucesso é continuar, mesmo quando dói.
O valor dos nossos filhos nunca está num diploma, numa nota ou numa classificação.
Goreti Anjos