30/01/2026
As notícias que não queremos receber. Mesmo pré-anunciadas, esperamos sempre que não cheguem.
Hoje faleceu um utente ligado ao lar de 3ª Idade durante 31 anos. Nunca é só um utente, é sempre algo mais que se perde. E quanto mais….
É uma liberdade que tomo hoje em poder falar na primeira pessoa mas é imperativo que assim o faça.
O Tó esteve metade da sua vida na condição de tetraplégico, vítima de acidente de viação ao serviço da causa de Bombeiro, voluntário na nossa cidade. Já o conhecia antes, de outras “radiofonices” em que nos cruzámos e vim recebê-lo num sábado de abril, para ter uma cara conhecida à saída da ambulância.
Lembrar o Tó é lembrar muitas conversas, alguns arrufos, nada que surpreenda quem o conhecia. É recordar a muita dificuldade em lhe poder ser útil, pessoal e institucionalmente, cabendo aqui falar de quem muito caminhou para que ele pudesse vir para uma habitação que não estava preparada para ele: mil e mais uns obstáculos tenazmente ultrapassados pelo incansável Sr. Professor Manuel Gouveia Serra, que acompanhei na Segurança Social quando estava ainda a perceber o que era a FAAD. Adaptou-se o mais possível, convenceu-se a Segurança Social que era aqui que ele queria estar depois de saído do Centro de Reabilitação do Alcoitão, isto com o apoio do Conselho de Administração que, à data, tudo fez para vencer resistências externas (e internas!). Afinal, não era um idoso, como várias vezes nos sentenciavam. Uma minudência, dizia à data… e fui-me convencendo disso.
Lembrá-lo é dizer que o seu corpo não lhe fazia a vontade. Já a sua mente tinha de se ocupar com o fazer o bem, sempre em prol daquela que era a sua família, desde logo, os Bombeiros e mais tarde a Associação de Deficientes que fundou, granjeando nos amigos os parceiros da iniciativa (grato pelo convite e deferência, também o ajudei). Pois se ele não fizesse o bem em frenéticas diligências e incumbências, dava-lhe para a asneira descarregada nas pessoas que lhe tratavam do corpo, dia após dia, noite após noite, para que tivesse a saúde possível e uma figura apresentável, a seu gosto. E como ele gostava de estar bonito e a disfarçar o mais possível a existência das múltiplas ajudas às suas funções biológicas e, ultimamente, o decair fisiológico! E ir… e estar….. e ser presente… e fazer acontecer…., tanto ao chorar como ao respingar.
Falhou-lhe o Euromilhões, que jogava assiduamente para poder fazer uma sede da sua Associação, pois o que organizava para obter fundos não lhe permitia almejar nesta vida aí chegar: ele sabia disso.
Nem os seus companheiros de residência escapavam à sua rebeldia, para bem e…. também para o mal. Queria incutir neles a juventude que lhes faltava para cumprir a motricidade que ele não tinha: era cartas, era dominó, era a malha… com ele, todos tinham de marchar! Eram a extensão dos membros caídos e insistia até à resignação do dia em que os via partir. E foram muitos, que ele a conversar recorrentemente lembrava. Afinal, eram família!
Quis o destino que não chegasses a velho, para que ninguém dissesse que este não era o teu LAR. Paciência, Tó, terás também de te resignar que a morte também te contrariou. E o Benfica….
Resta recordá-lo e amanhã, sábado, acompanhá-lo à sua última morada, no cemitério da Lajeosa.
Até sempre, deixas saudades!
Pedro Oliveira