27/12/2025
O Natal por dentro (Um texto mais do livro que podem encontrar na Amazon)
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Famílias Recompostas e Natais Desalinhados - Novos companheiros, novos irmãos, novas rotinas
Há calendários que não aparecem nas agendas digitais, mas organizam a vida de muitas casas:
— «Este ano o Natal é com o pai.»
— «Para o Ano Novo vais para a mãe.»
— «Dia 24 jantas aqui, à meia-noite vais para lá.»
Nas famílias recompostas, o mapa de Dezembro parece um puzzle: casas diferentes, horários combinados, afectos repartidos, lealdades divididas.
Por fora, tenta-se compor a fotografia: sorrir todos juntos, como se o guião fosse simples. Por dentro, contudo, quase toda a gente sente, em algum ponto, desalinhamento.
Para a criança (ou jovem), pode ser isto:
— fazer mala no próprio dia 24;
— mudar de regras, de ambiente, de jeito de amar;
— ouvir histórias diferentes sobre as mesmas pessoas;
— sentir que, se estiver bem num lado, trai o outro;
— sentir que tem de “equilibrar” o humor dos adultos.
Para os adultos, o enredo também é exigente:
— querer acolher os filhos do outro sem ocupar o lugar de mãe/pai;
— gerir presenças de ex-parceiros nas conversas ou nas decisões;
— sentir ciúme das memórias que não partilhou;
— lidar com comparações, reais ou imaginadas;
— gerir a própria mágoa enquanto tenta ser “maduro” para os filhos.
O discurso social, porém, é superficial:
«O importante é que se dêem todos bem.»
«As crianças habituam-se.»
«Desde que haja amor, está tudo certo.»
Em clínica, sabemos que não é tão simples.
Sim, as crianças podem adaptar-se.
Sim, muitas famílias recompostas constroem laços belíssimos.
Mas esse caminho passa por conflitos de lealdade, negociação de fronteiras e, muitas vezes, culpas silenciosas.
Confiança repartida, lealdades esticadas
Uma criança em família recomposta leva, dentro do peito, vários mapas ao mesmo tempo.
Sabe que o pai e a mãe já não são casal.
Sabe que, muitas vezes, ainda há mágoa.
Sabe que há novos companheiros, novos irmãos, novas rotinas.
Mesmo que ninguém verbalize, o corpo da criança lê sinais:
— pequenas frases ácidas;
— silêncios pesados quando se fala “do outro lado”;
— curiosidade em forma de interrogatório;
— elogios que vêm com recado: «aqui é que estás bem», «lá é que é complicado».
De forma subtil, a criança pode aprender: «Eu tenho de gerir o que conto a cada lado, para não magoar ninguém.»
Isto é uma forma precoce de parentif**ação emocional: o filho assume a tarefa de proteger o estado emocional dos adultos, em vez de ser protegido por eles. Em Dezembro, este papel surge com nitidez:
— “não vou dizer à mãe que me diverti com a nova família do pai”;
— “não vou contar ao pai que gostei do namorado da mãe”;
— “vou tentar estar bem em todo o lado para ninguém f**ar triste.”
É um esforço enorme, invisível, que consome energia mental e afectiva.
O lugar do novo companheiro
Para quem entra numa família já em curso, o Natal pode ser um exame silencioso:
— “vou ser aceite?”
— “vou estar sempre a mais?”
— “posso trazer as minhas próprias tradições?”
É fácil cair num de dois extremos:
— Tentar substituir: ocupar espaço de mãe/pai, “corrigir” o que o outro fez, impor afecto à força.
— Desaparecer: f**ar sempre de lado, não opinar nunca, ser cordial mas falso, fingir que não tem necessidades.
Nenhum dos extremos é sustentável.
O lugar possível é mais humilde: adulto presente que cuida, sem roubar nem desaparecer.
Não é mãe, não é pai. É uma outra figura de referência, que pode ser importante, desde que não funcione como arma de guerra nem como sombra muda.
Para que isto seja possível, é preciso que o casal actual tenha conversas difíceis fora do cenário de Natal:
— clarif**ar o que é esperado de cada adulto;
— reconhecer ciúmes, medos, inseguranças;
— combinar regras mínimas para não colocar as crianças no meio de conflitos letais.
O mito do Natal perfeito e a realidade repartida
Outro ponto que dói: muitas pessoas divorciadas, separadas ou recasadas carregam a fantasia de “compensar” os filhos no Natal. Compram demais, programam demais, tentam criar uma festa perfeita para neutralizar a experiência de ruptura.
O problema é que, por mais amor que haja, não se repara uma história complexa com um dia impecável. O que mais ajuda as crianças não é a perfeição de um Natal, mas a previsibilidade básica ao longo do ano, o respeito entre adultos, a liberdade para gostarem de todos sem se sentirem culpadas.
É muito frequente ouvir crianças e jovens dizerem:
— «O problema não é ir de uma casa para outra; o problema é o que os adultos fazem com isso.»
O que mais as fere raramente é o esquema em si; é:
— serem usadas como mensageiras;
— ouvirem desabafos sobre o outro progenitor;
— serem pressionadas para “escolher”;
— serem postas no centro dos conflitos de adulto.
Desalinhamento não é falha: é complexidade
Famílias recompostas são sistemas complexos.
Têm histórias diferentes a tentar coabitar, ferias antigas e novas alegrias, medos de perder lugar, vontade de recomeço. Não são “famílias de segunda”; são famílias onde a teia é mais intricada.
O Natal, nesse contexto, vai ser, quase inevitavelmente, um pouco desalinhado:
— horários que não batem certo;
— presenças que fazem falta num lado e noutro;
— filhos que chegam cansados de uma casa a outra;
— novas tradições que colidem com as antigas;
— sentimentos mistos de alegria e de pena, de alívio e de saudade.
O objectivo não é eliminar o desalinhamento — isso seria fantasia. É torná-lo vivível, em vez de o transformar em campo de batalha.
Do ponto de vista clínico, o que ajuda é:
• clareza de acordos entre adultos, feita fora da frente das crianças;
• liberdade para os filhos gostarem de todos, sem serem punidos por isso;
• alguma humildade de cada parte: reconhecer que não vai ser perfeito, que haverá ciúmes, descompassos, falhas – e, ainda assim, é possível criar momentos bons;
• direito a ajustar planos de ano para ano, à medida que a família se reorganiza.
Micro-exercício:
Se vives numa família recomposta — como pai, mãe, padrasto, madrasta, filho, enteado, avô — experimenta este exercício escrito.
Desenha os “dois lados” (ou mais)
Num papel, esboça as casas que entram no Natal:
Casa A, Casa B, talvez Casa C (avós, tios, etc.).
Anota quem está em cada uma, de forma simples.
Escreve, para cada casa:
«O que esta casa oferece de bom às crianças (ou a mim).»
(ex.: estabilidade, comida, humor, atenção, espaço, regras claras, liberdade.)
«O que é mais difícil nesta casa.»
(ex.: críticas, barulho, álcool, tensão, frieza, excesso de regras, falta de regras, manipulação, distância.)
Clarif**a o teu lugar neste sistema
Completa:
«O meu lugar, neste sistema recomposto, tem sido…»
(ex.: “o que apazigua”, “a que se sacrif**a”, “o ausente”, “o que tenta ligar as pontas”, “o que observa sem falar”.)
Depois escreve:
«O lugar que eu gostaria, realisticamente, de ir construindo é…»
(ex.: “adulto presente, não salvador”; “pai disponível, mesmo sem ser perfeito”; “madrasta que cuida, sem competir”; “filho que pode gostar de todos sem fazer de terapeuta dos pais”.)
Uma conversa possível + um limite possível
Escolhe:
Uma conversa de adulto para adulto que, este ano ou no próximo, gostarias de ter (fora das festas), para clarif**ar expectativas:
(sobre horários, sobre álcool, sobre lugar de cada um, sobre o uso das crianças como mensageiras).
Um limite mínimo que vais honrar este Natal, para te proteger e proteger os mais pequenos:
(ex.: não falar mal do outro progenitor à frente da criança; não pedir ao filho que escolha “de que lado está”; não usar os Natais para ajustar contas; sair de uma conversa que está a descambar; não usar o filho como informador secreto.)
Escreve esse limite em forma de compromisso curto:
«Neste Natal, eu não vou…» / «Neste Natal, eu vou garantir que…»
Famílias recompostas não são erro de guião.
São enredos em reescrita, onde muitas vezes se aprende, com dor e beleza misturadas, uma coisa que os contos simples esquecem: o amor pode mudar de forma e, ainda assim, continuar a ser amor — desde que não peça às crianças que carreguem o peso do enredo.
Pergunta para f**ar:
Na tua família recomposta, que pequeno ajuste — em ti, nas conversas, nos limites — poderia tornar o próximo Natal menos perfeito, mas um pouco mais habitável para todos, sobretudo para os mais novos?
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