02/02/2026
Dou por mim, vezes sem conta, a refletir sobre a diferença subtil, e profunda, e do quanto confundimos prazer com felicidade. Talvez o prazer seja aquilo que retiramos do mundo, enquanto a felicidade é aquilo que nele deixamos.
Esta distinção simples encerra um dos grandes equívocos do nosso tempo. Confundimos felicidade com futilidade porque somos educados socialmente a procurar fora aquilo que só pode nascer dentro. Vivemos a acumular estímulos, experiências e sensações, como quem tenta preencher um poço sem fundo. A verdade é que as compulsões oferecem-nos uma promessa breve de felicidade, um alívio momentâneo, diria eu, um prazer imediato. Mas exigem sempre mais, e nunca bastam.
Pois o prazer retira. A felicidade entrega. O prazer satisfaz o instante. Já a felicidade atravessa o tempo.
Aquilo que nasce da compulsão não constrói, simplesmente distrai. Cria a ilusão de plenitude, mas deixa-nos, tantas vezes, mais vazios do que antes. Em contrapartida, aquilo que é construído com consciência, em nós ou no outro, transforma-nos de forma silenciosa e duradoura.
A verdade é que tudo o que verdadeiramente transforma exige um coração disponível para reconhecer a alegria discreta e quase sagrada que nasce da atenção ao outro.
E, essa alegria não é ruidosa, nem exibicionista, nem tão pouco exige. Nasce da escuta, e de gestos simples, como se algo em nós reconhecesse algo no outro e, por breves momentos, nos lembrasse de quem somos para além das urgências do quotidiano.
É uma felicidade que não excita, mas enraíza. Não consome, mas ilumina. Não passa, simplesmente permanece.
Assim, talvez felicidade não seja algo que se procura, mas algo que se pratica. Algo que deixamos no mundo sem garantias de retorno.
Hoje percebo que quanto mais tentamos retirar do mundo, mais vazios ficamos. E quanto mais deixamos, mais inteiros nos sentimos. Talvez a verdadeira felicidade resida precisamente nisso, não naquilo que conseguimos acumular, mas naquilo que conseguimos oferecer sem nos perdermos de nós. E é, paradoxalmente, entre o que tiramos e o que deixamos no mundo, no ato de nos doar, que nos tornamos verdadeiramente inteiros.
De alma para alma,
Ana Bernini